Sociedade

Psicóloga e escritora vendeu bebidas na praça

Rui Ramos

Jornalista

Denise Kanganda é pseudónimo literário de Denise Joana da Silva Pedro, nascida a 11 de Março de 1984, no Lobito, “mas com identidade de Luanda”, filha de José Armando Pedro e Júlia Bernardo da Silva, ambos de Malanje.

02/05/2021  Última atualização 09H00
Denise Kanganda seguiu sempre em frente © Fotografia por: DR
Denise Kanganda é membro da Brigada Jovem de Literatura de Angola, membro do Clube Nacional dos Poetas e Trovadores e autora dos livros "Ascensão Cósmica” (2008), "Galáxia de Sorrisos” (2012) e "Borboleta dos Meus Vagares” (2014).

O pai de Denise Kanganda, desde os 20 anos, cumpriu a vida militar. "Em todas essas andanças, por conta da missão de serviço do meu pai, os meus pais foram viver no Lobito, razão pela qual os 3 últimos filhos nasceram ali, inclusive eu.”
Denise Kanganda tem mais 11 irmãos, sendo 8 do mesmo pai e mãe, e 4 só de pai. "Conheci apenas dois irmãos de pai.”
A mãe de Denise Kanganda trabalhou em Benguela no sector da Habitação e durante 9 anos na África Têxtil, estando agora na situação de reformada.

Em 1992, a família, por motivo da guerra, que aí se fazia sentir com todos os seus horrores, viajou para Luanda, "num momento muito difícil”, em busca de uma vida melhor, "porque no Lobito as condições de vida tinham chegado a um limite quase infra-humano”. Em Luanda, a adaptação não foi fácil. "Sem casa e sem proventos, enfrentando dificuldades extremas, fui parar à praça aos 13 anos de idade”, diz-nos Denise Kanganda, que se lembra de vender pão, o "pão burro”, gelado de múcua e rendas que a mãe fazia, além de outros produtos passíveis de ser vendidos.

Denise Kanganda, menina do Lobito emprestada a Luanda, cresceu assim, com sonhos repousando na sua cabeça. Aos 16 anos, a adolescente Denise Kanganda passa também a vender garrafas de whisky, com dois irmãos, porque a mãe estava muito doente e não podia fazer trabalhos esforçados.

Denise Kanganda lembra-se da sua mãe acometida de doença, quase incapaz de fazer esforços e todo o agregado familiar entregue ao esforço de conseguir algum provento. E também recorda ter feito os estudos primários nas escolas 228, 101 e Amos Coménio, e o secundário no PUNIV Central. "Nessa época, o ingresso na Universidade era uma utopia, fiquei na luta durante dois anos fazendo testes de ingresso, um esforço que nos atira num repente para a idade adulta.”

Mas Denise Kanganda persistiu, não desistiu,”muitas vezes amargurada por tamanhas dificuldades”, consegue matricular-se, depois de fazer testes, no Instituto Superior de Ciências da Educação, onde faz a licenciatura. Depois viaja para Lisboa, onde faz a Pós Graduação em Terminologia e Gestão de Informação. "O meu objectivo era fazer o mestrado, mas foi muito difícil para mim, devido à pressão do mau momento, e não ter condições psicológicas devido à morte do meu pai.” Mas nem mesmo uma cirurgia ao abdómen a leva a desistir, embora a perda do pai na mesma altura lhe tenha provocado momentos de profunda depressão.

Viaja então para Luanda, para as exéquias do pai, apanha malária, que se manifesta já em Portugal, tendo ficado acamada durante 7 dias com febres. Conseguiu ir a um restaurante, penosamente, e um conterrâneo, compadecendo-se dela, ajudou-a a ir à consulta no Hospital Egas Moniz, onde lhe foi diagnosticada malária muito elevada, permanecendo mais sete dias acamada.

"O meu pai foi a minha maior referência como ser humano. O ser levado pela morte prematura, numa fase quase conclusiva do meu curso, foi a minha maior desgraça.”  Denise Kanganda lembra ainda outro momento marcante na adolescência, quando teve de exercer a actividade da venda de whisky. "Fui apanhada pela Polícia, tendo os agentes me colocado na carroçaria da carrinha azul escura, deixaram-me perdida, já noite, numa rua cheia de lama, num dia em que faltou a energia, Chorei bastante de impotência.”
Como psicóloga e actualmente a trabalhar em Recursos Humanos em Luanda, Denise Kanganda é uma jovem de pensamento muito activo, sempre pronta a propor soluções sensatas e de acordo com os direitos fundamentais do ser humano.

"É necessário que, na medida que os tempos mudam, haja também maior responsabilidade pela pessoa humana em todos os sectores sociais, para que toda a sociedade possa alcançar a mesma velocidade.”E conclui o seu pensamento: "Espero que, como psicóloga e escritora, eu possa contribuir com aquilo que faço, no intuito de poder crescer, vivenciar os frutos, depois de lançar à terra a semente do amor, pois a nossa forma de fazer pode ser também essa manifestação de amor que todos nós almejamos.”

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