Opinião

Quadra imperfeita

1 - Foram insípidos e frios os dias de Natal e Ano Novo. Não fosse a toalha que cobria a mesa comprida a acolher apenas quatro pessoas, não fossem umas luzinhas a piscar intermitentemente que a Mina comprou e pôs a funcionar, não fosse ainda o arroz doce da tia Guiomar e as rabanadas do primo Teco, eu não me lembraria desses dias de festa.

10/01/2021  Última atualização 09H55
 Não tinha nenhum filho ou neto presente, nem a restante família que se junta nesta quadra. Um cenário a avisar que estávamos ainda a viver o ano maldito, o mais trágico das nossas vidas, corolário do anterior, também de tristes recordações.

Passou uma semana e mais uns dias. Resolvi abrir os pequenos embrulhos, uns grandes, outros mais pequenos, todos forrados com o tradicional papel com os símbolos da festa natalícia, a árvore, as velas e o velho Pai Natal no destaque costumeiro. Arrumados num canto da sala, ideia da cunhada Antónia.

Eram os presentes da família e dos amigos. Peúgas, uma manta, um cachecol, tudo apropriado para a época, roupa quente para me agasalhar e proteger deste tempo gélido com o qual não me identifico. Receoso da gripe e das constipações, já tinha tomado a vacina adequada em Outubro.

Voltando aos presentes, ainda recebi uma caneca com as cores e o emblema do meu Benfica, e o meu filho Hugo, lembrando-se dos meus ossos velhos, enviou-me via internet uma almofada para colocar entre as pernas na hora de dormir. A caneca vai servir por enquanto os meus chás quentes, todos eles distantes do milagroso chá de Caxinde, o que sempre me acompanhou na vida. Provavelmente servirá ainda para festejar vitórias do Glorioso.

Nesse âmbito, ganhei de um amigo, o escritor angolano e antigo jornalista Xavier de Figueiredo, um belo livro, acabado de publicar. "O Príncipe do Congo” relata Angola na difícil transição da era do tráfico de escravos para a história moderna.

Dei-lhe uma vista de olhos, pareceu-me interessante. Vou lê-lo com a devida atenção, mais tarde. Da minha querida Maria José, recebi um vídeo de Adoniran Barbosa, o compositor que catapultou para a fama os célebres "Demónios da Garoa” com o tema "Iracema”, uma pequena relíquia.

Partilhei-o com o companheiro de muitos carnavais e não apenas dessas farras, o meu querido Dionísio Rocha que também está aqui confinado na Tuga. Dividir música só mesmo com gente sensível, que a saiba apreciar. Por último veio o presente do Francisco Soares, simbolizado numa frase curta e simples, de grande significado. "A tua esperança vale ouro”, disse-me ele, escrevendo este curto comentário, a partir do Brasil, onde se encontra.

Os presentes tocaram-me o coração.
Todos eles. As roupas e a caneca vão servir certamente este e próximos invernos, porém a almofada, o livro, a música e a expressão do Chico, servirão todas as estações que tenho pela frente e, sobretudo, avivarão a minha memória, enquanto puder recordar.

2 -Não é novidade para os que me conhecem. Sou um eterno coleccionador de afectos. Sensível à dor e ao sofrimento.
Trago sempre a mira da minha arma crítica, apontada para a área social do nosso país. Falo de verdades, coisas, factos e assuntos que não agradam a muita gente. Mas precisam de ser abordadas. Daí o exemplo que segue.

Nesta longa estadia em Portugal, por via da mortífera Covid-19,fico a saber que existem 100 mil idosos internados em lares deste pequeno país. A maioria das casas estruturam-se como estabelecimentos de alojamento residencial colectivo, locais destinados à assistência e aos cuidados médicos e de enfermagem, desenvolvendo também actividades de apoio social que contribuem para o bemestar e a melhoria da qualidade de vida de pessoas que a elas recorrem.

Dividem-se entre lares privados e outros geridos pelo Estado. Julgo mesmo que as Misericórdias e as chamadas Santas Casas têm intervenção nessas áreas. Há os de baixa, média e alta qualidade, de valências diferentes. A escolha depende do poder económico dos idosos doentes ou do das suas famílias.

Seja qual for o ponto de vista pelo qual possa ser apreciado, trata-se de estrutura importante da área social da governação portuguesa. Falemos agora, um pouco de nós. Quantos lares existem em Angola? As Misericórdias funcionam no nosso país? O Beiral de Luanda é referência? Quantas instituições de apoio aos sem-abrigo se conhecem?

Somos diferentes, é verdade, não se podem fazer comparações entre as nossas sociedades, em princípio porque somos africanos. Como se isso fosse suficiente para justificar diferenças! Somos realidades distintas, é certo, mas temos em comum um factor indesmentível que não dá direito a discussões.

Ambos os países têm na sua população pessoas idosas e pobres a necessitar de cuidados. Só que nós estamos sempre distantes, numa postura que é só nossa, intrínseca à malta. Gritamos, orgulhosos, que somos mwangolés, Senhores de gestos que nos identificam, mostramos a quem quer ver, uma insensibilidade atroz por causas humanitárias. Não estarmos nem aí, no que de mau toca ao outro, ao nosso compatriota.

Eu, pelo meu lado, penso e questiono: porque não obrigar o Estado, no caso, o INSS, a incentivar os privados a criarem pelo país todo, estruturas semelhantes aos dos tugas? Estudem-se, como se estudam para o pequeno comércio e demais negócios, as formas, imitem-se exemplos alheios, mas façam algo de útil que possa melhorar a vida dos mais velhos e dos sem-abrigo do nosso país.

Façam-no, formem pessoas, não serão precisas eternidades para as habilitar, e criar-se-ão certamente milhares de empregos entre a população jovem que tanto trabalho reclama. Dinheiro? O do INSS, o sabido e o de paradeiro incerto, o gerado pelo seu invejável património, também as contribuições dos reformados, transparentes e melhores geridas. E o OGE, claro está, se melhor distribuído e estiver mais sensível ao sofrimento humano.

Acredito que é possível fazer alguma coisa. Mas, se o fizerem, por favor, não entreguem as estruturas a familiares, compadres e amigos. Entreguem-nas a agremiações da sociedades civil, organizadas, isentas e credíveis, capazes de mobilizar, gerir, prestar contas e dar emprego a muita gente, ao mesmo tempo que se cria uma rede importante da Segurança Social em todo o país. A Comunicação Social tem o dever de ser parceira deste tipo de iniciativas. Esperando que não esteja a gastar inutilmente a minha saliva, despeço-me de todos. Até domingo, à hora do matabicho.

Jacques dos Santos

Escritor

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