Opinião

Quem somos nós?

O que somos tem relação estreita - embora não absoluta - com o que nos sentimos ser

22/11/2020  Última atualização 14H05
… sometimes when I’m feeling as big as the land…”
Por vezes sentimo-nos tão grandes como a nossa terra! O vislumbre que Melanie Safkatão bem transmite - com a sua canção "Peace Will Come” - de fazermos parte de algo mais amplo ou, dito de outra forma, sermos apenas uma pequena parte de algo imenso e em movimento, continua a dar-nos a mesma agradável vertigem que na nossa adolescência.
Quem somos? (E como o manifestamos?). São ténues as linhas que existem entre "quem nos sentimos ser”  e  "quem somos realmente”.  Linhas que se ligam e se entrelaçam, tecendo a nossa História e a nossa Cultura.

Alguns, muito poucos de nós, conseguem sentir-se parte - muito mais do que um mero estar dentro - de todo o universo. Outros, da humanidade (também poucos), num sentido de irmandade e de partilha de responsabilidade pelo próximo. Muito mais frequente é o sentimento de pertença a um país ou a uma nação. E, dentro desta, a um grupo social. Enfim, quase todos nos sentimos parte de uma família, a quem devemos os genes, a existência e os traços iniciais do nosso viver.

Preocupante - não raro - é quando a pertença a um grupo (partido, tribo) se sobrepõe à comunhão com todo o país. Igualmente grave é quando nem da nossa rua nos sentimos parte, só nos preocupando com o que está dentro do nosso quintal ou residência. Estes sentidos de identidade "mais limitados” estão, geralmente, na base de atitudes de predação, desrespeito ou rejeição em relação ao mais vasto, ao que não é sentido como nosso, ou como parte de nós. Esta ilusão de desligamento - não nos apercebermos que somos parte de algo maior- provoca enormes estragos às famílias, às sociedades e às suas economias, e também à própria natureza.
O que somos tem relação estreita - embora não absoluta - com o que nos sentimos ser e ambos se traduzem na forma como nos comportamos e agimos em sociedade.

Mas tanto o nosso sentido de identidade como a nossa cultura (o que somos e como o manifestamos) são algo em constante transformação. O que pode, em determinadas fases, resultar em progresso e, noutras, em regressão. A nossa identidade e a nossa cultura são dinâmicas, permanentemente sujeitas a influências e também moldadas pelas nossas acções.
De certa maneira somos (indivíduos e grupos) como uma árvore, cujas raízes, ramos e folhas, vão beber de um vasto manancial de solo, luz e ar,... comunicando com outras árvores da floresta, estendendo-se, fazendo desabrochar flores e frutos. Mas que também se pode degradar. Da forma como for guiada e tratada resultará, ao fim de uns anos, na árvore que teremos.

E mesmo se tenha mal crescido, não se pode dizer que tudo esteja irremediavelmente perdido. No limite, os rebentos da árvore que parece perdida podem renascer e aprender das dificuldades de onde e quando foram geradas. Por tudo isto preferimos dizer que estamos, mais do que somos. Somos um processo e não algo acabado, e queremos estar confiantes e optimistas.
Deve estimular-nos esta consciência de fazermos parte de algo maior que nós, em constante desenvolvimento. Ainda que regularmente assaltados por dúvidas sobre quem somos, onde estamos, ou sobre aquilo em que nos estamos a transformar… como país.

Já teremos, atécerto ponto, recuperado da orfandade resultante da dissolução de obstinadaslealdades a grupos, agora enfraquecidos, a que sentíamos pertencer... Pensamos entender o bom que resultou daí, em termos de inclusão num universo mais amplo e rico, em diversidade e potencial. E descobrimos como podem ser persistentes as influências - algumas positivas, outras nefastas - de que continuamos a sofrer e beneficiar. Faz falta reflectir e debater sobre tantos quase-tabus, marcas deixadas na nossa cultura, que muitas vezes carregamos de forma pouco consciente...

Estaremos distraídos - discutindo o sexo dos anjos ou sonhando com unicórnios - num momento em que demasiados dos nossos concidadãos vivem atormentados pela pobreza, pela exclusão ou lutam empolgados pelo direito à livre expressão, e até pela sobrevivência?: - entendermos quem somos (e como isso se manifesta), é crucial no processo da nossa transformação, para bem resolvemos os problemas que colectivamente enfrentamos, e na forma como o fazemos.

Os que "lutam” nas ruas, uns pelo direito à manifestação e pelos vários direitos da população, outros pela manutenção da ordem e pela defesa da lei, não se podem nunca esquecer que somos todos parte de algo comum, mesmo estando em campos diferentes. Antagonismo que só cabalmente entenderemos e resolveremos quando percebermos de onde vem e porque existe, e que está intrinsecamente ligado a quem somos, a como nos sentimos e em que nos transformámos. Se desenvolvermos um forte sentido moral, de lealdade e de dever para com o país, estaremos a contribuir para o sentimento de pertença colectiva, como angolanos, à Humanidade.Sendo fundamental que, devido às diferenças, não resvalemos para um abismo do qual demorará -e muito custará - voltar a sair.

Não nos esqueçamos nunca que já tendo lá estado, sabemos do preço que pagámos.
O sentimento de descontrole, de desamparo e de perdição que abala tantos cidadãos neste momento só pode ser passageiro: não temos alternativa senão a de empenharmo-nos em pensar  no  como  e no porque chegámos aqui  (quem somos)  e de buscar corajosamente uma ponte entre o passado e o presente, que nos leve a um amanhã melhor.

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