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Representante da ONU defende ajuda militar

Mirko Manzoni, representante das Nações Unidas em Moçambique, defende a ajuda militar externa no combate aos grupos rebeldes no Norte do país

22/11/2020  Última atualização 20H19
Mirko Manzoni é de opinião que o apoio de parceiros internacionais seja dado sem hipocrisia © Fotografia por: DR
O representante do Secretário-Geral das Nações Unidas em Moçambique, Mirko Manzoni, defende a ajuda militar externa para o combate aos rebeldes em Cabo Delgado, "sem hipocrisia”.
"Os doadores contribuem para o Orçamento de Moçambique, mas seria mais sensato se ajudassem directamente o Exército local sem hipocrisia”, referiu, em entrevista recente à edição online do jornal suíço "Le Temps".
Manzoni, que até 2019 tinha sido embaixador da Suíça em Moçambique, sendo depois escolhido por António Guterres para acompanhar as negociações de paz entre Governo e oposição, fala nesta entrevista de um outro dossiê, o dos rebeldes armados no Norte do país.
O responsável disse que se opõe ao uso de mercenários, mas a situação é complexa: "a realidade no terreno deve fazer-nos reflectir”.
"Quando se pede ajuda e ninguém mexe um dedo, é isso que acontece. Moçambique gasta fortunas com mercenários”, primeiro com russos do grupo Wagner e agora com uma empresa sul-africana, detalhou Manzoni, para depois fazer o apelo à ajuda directa dos doadores.
Mirko Manzoni diz que é preciso dar ouvidos à liderança do país. "Oiçamos o apelo de Moçambique, a ajuda militar deve ser fornecida através da cooperação”, ou seja, "ajudar o Exército moçambicano a cumprir as suas obrigações”, em vez de ocupar o seu lugar.

Diz ter noção de que tal ajuda não é bem vista entre os parceiros, que não querem "sujar as mãos”, mas "é uma ilusão querer desenvolver a província de Cabo Delgado sem primeiro haver segurança”, referiu.
A petrolífera francesa Total , por exemplo, financia um serviço de segurança para proteger as suas instalações de exploração de gás natural, em construção na região, "mas esse esforço é muito modesto”.

O representante de Guterres em Moçambique diz que a situação em Cabo Delgado faz-lhe lembrar a ameaça jihadista de 2012 no Mali, mas opõe-se a uma intervenção internacional no Norte de Moçambique.
Isso seria "deitar mais lenha na fogueira” e beneficiaria a propaganda extremista. Por outro lado, disse, também, que não se pode "dialogar com surdos”, referindo-se aos rebeldes.

No início dos ataques eram principalmente moçambicanos, mas agora são na maioria "jihadistas internacionais vindos da Somália, Iémen, Líbia, Uganda e República Democrática do Congo”, com "armas muito sofisticadas”, acrescentou, sem, no entanto, explicitar fontes ou provas.

Questionado sobre as violações de direitos humanos cometidas contra a população, algumas atribuídas aos militares moçambicanos, Manzoni referiu que, "paradoxalmente, essas atrocidades também devem ser vistas como um claro pedido de ajuda” das próprias Forças Armadas.

A violência armada em Cabo Delgado dura há três anos e está a provocar uma crise humanitária com cerca de 2 mil mortes e 435 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos suficientes – concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.
 
Partidos divididos

Na sexta-feira, em pleno Parlamento,  a Frelimo, partido no poder no país, saudou a acção diplomática do Governo na luta contra os grupos armados, enquanto os dois partidos da oposição parlamentar apontaram a incapacidade em travar a violência armada, de acordo com a Lusa.

A actuação do Governo no combate aos grupos armados em Cabo Delgado foi abordada numa sessão de perguntas e respostas entre os deputados e os membros do Executivo. Ana Rita Sithole, deputada da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e membro da Comissão Permanente da Assembleia da República, considerou "excelente” a acção diplomática do Executivo visando mobilizar o mundo para o que considerou de "jihadismo” internacional.

A Renamo, principal partido da oposição, e o Movimento Democrático de Moçambique , terceiro partido com assento parlamentar, fizeram uma leitura diferente da actuação do Governo em relação à violência armada. António Muchanga, deputado da Renamo, acusou o Governo de ter estado em negação durante muito tempo perante o crescimento da violência armada em Cabo Delgado.

O MDM por seu lado, considerou que as Forças de Defesa e Segurança estão a mostrar incapacidade de combater os grupos armados.

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