Opinião

Rica cultura africana

Sousa Jamba

Jornalista

Quando se fala da contribuição do Continente Africano à economia mundial, pensa-se logo em recursos naturais. Vi há dias um clipe no Facebook em que uma figura de peso nos Emirados Árabes Unidos diz que a Nigéria tem tudo, em termos de recursos naturais, mas é muito mais pobre do que o seu país.

02/04/2021  Última atualização 07H00
O cidadão dos Emirados insiste que tudo tem a ver com a liderança; o seu país, ele insiste, teve a sorte de ter grandes líderes. Lembro-me, também, de um clipe em que um pastor nigeriano afirma que se ele estivesse ao lado de Deus e lhe fosse perguntado qual era o país que ele pretendia ter na terra, a sua resposta iria insistir num país com os recursos da República Democrática do Congo e com líderes de uma Finlândia. A Nigéria tem um outro grande recurso que agora está a ser levado muito a sério; a sua indústria de cinema, a chamada Nollywood, agora injecta anualmente quase um bilião de dólares americanos à economia. 

Recentemente, dois músicos nigerianos, Burna Boy e Wizkid, ganharam prémios "Emmys” — claramente um sinal que, cada vez mais, o mundo passou a valorizar a produção musical nigeriana. O mesmo pode ser dito sobre a música africana. Depois dos prémios Emmys serem atribuídos aos músicos nigerianos, segui um debate num canal americano onde um analista disse que um dos grandes escândalos do mundo musical, era a subestimação da produção artística africana. Ele disse que o Continente Africano estava a produzir coisas nas artes visuais e também escritas altamente impressionantes. Felizmente, muitos músicos e artistas africanos estão a ser conhecidos por causa das redes sociais. Li numa revista americana sobre o músico malawiano Patience Namadingo. Muitos africanos também nunca ouviram falar dele. O autor do artigo disse que o descobriu por acaso no YouTube. Fui ver os clipes de Patience Namadingo e certamente este é um caso de alguém com talento raríssimo. Para ser conhecido na África Austral, Namadingo cantou em várias línguas da nossa região. 

O grande problema é que os líderes africanos não levam as indústrias artísticas a sério. Durante a minha infância na Zâmbia, havia muitos artistas e grupos musicais, alguns altamente influenciados pela moda no Ocidente. Uma das bandas que era muito popular naquele tempo era o "The Witch.” Havia, também, um guitarrista, fortemente influenciado pelo Jimmy Hendrix, chamado Paul Ngozi. (O Ngozi foi enterrado no cemitério de Leopards Hill, em Lusaka. Há quem diz que há noites em que, da campa dele, ouvem-se refrãos da sua guitarra solo que arrepiam…) Na altura, as autoridades zambianas não levavam estes músicos a sério. Lembro-me de um ministro ter dito  que estes miúdos que fumavam liamba com os seus sons tão estranhos eram uma grande vergonha para o país. Havia, então, agrupamentos musicais, apoiados pelo Ministério da Cultura, que cantavam louvores ao partido no poder e ao então Presidente Kaunda. Lembro-me de um grande escândalo quando um músico teve uma canção que criticava os chefes do partido único que humilhavam as pessoas no bairro.

E cá está uma das razões que fez com que a produção musical em África tenha passado a sofrer um certo atrofiamento. Os grandes artistas só singram num clima que permite a expressão de opinião. Na Zâmbia, existe hoje vários tipos de música — incluindo canções com mensagens relacionadas à política. Certos músicos são levados muito a sério pela juventude. Durante as campanhas eleitorais, há músicos que fazem fortunas apoiando certos candidatos. Na Tanzânia, o falecido Presidente John Magafuli não podia com certos músicos, que davam eco aos argumentos dos seus adversários políticos. Na Zâmbia, um músico popular, Pilatus, teve que se exilar na África do Sul, porque as autoridades queriam meter-lhe  na cadeia, já que uma das suas canções não parava de ser tocada nas discotecas. No Uganda, Bobi Wine chegou, até, a ser o principal adversário do Presidente Yoweri Museveni nas últimas eleições. Museveni não pode com músicos que insistem em cantar sobre assuntos nacionais. 

No dia 18 de Abril de 1980 em Salisbury, no estádio de Rufaro, o grande Bob Marley actuou com a sua banda, "The Wailers”, para marcar a independência do Zimbabwe. Duas décadas depois, passamos a saber que Robert Mugabe, que veio a ser Presidente do país, não queria o Bob Marley; ele queria o cantor britânico Cliff Richards, que canta sobre amor, férias, aniversários, etc. Mugabe disse aos seus próximos que o Bob Marley era um perigo, porque iria criar muitos pequenos revolucionários no país. Dito e feito: o Zimbabwe passou a ter muitos músicos com cabelos Rasta, que também insistiam em mensagens que questionavam o status quo. 

Alguns meses atrás, o Yuri da Cunha veio aqui no Planalto e fomos juntos para uma aldeia. Lá, ele começou a dançar com os aldeões num ritmo Afro-beat; notei logo a influência do grande Felá Rasome Kuti. Em vida, o grande músico nigeriano estava sempre a ser preso porque a sua mensagem não alinhava com a dos governantes. Hoje, milhões e milhões de dólares vão parar à  Nigéria na base das produções de Felá. Um grande fã de Felá é o cineasta Biyi Bandele Thomas. O Biyi Bandele está a fazer um filme baseado nas memórias da prisão de Wole Soyinka, o primeiro africano a ganhar o Prémio Nobel de Literatura em 1986. De 1967 a 1969, Wole Soyinka foi preso — história de sempre dos políticos de então que acreditavam que a melhor forma de crítica literária era a prisão! O Biyi Bandele contactou-me recentemente porque queria usar uma canção de Alberto Teta Landu, "Massanga Mami.” Durante a nossa conversa, o Biyi Bandele, depois de ter ouvido tanta música angolana, perguntava-se porque razão esta não era mais conhecida no resto do Continente Africano. Eu disse ao Biyi que Angola era muito mais do que o petróleo e diamantes… 

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