Economia

Santa-Clara vê negócios a fugir das mãos

Sem qualquer actividade produtiva, industrial ou das grandes superfíceis comerciais que estimulem o desenvolvimento, a Santa-Clara, uma localidade da província do Cunene, que nasceu do comércio fronteiriço entre Angola e Namíbia, hoje apenas superada pela cidade de Ondjiva em termos populacionais, está a viver momentos de sufoco desde o encerramento da fronteira terreste por conta da Covid-19, dada a sua total dependência económica do país vizinho.

27/11/2020  Última atualização 13H10
© Fotografia por: Edições Novembro
A nova realidade, que tornou os passeios e a principal estrada da localidade de acesso à República da Namíbia quase "despovoados”, devido às medidas preventivas da doença, que proíbem a entrada e saída de pessoas através da fronteira, está a obrigar os habitantes locais a buscarem todas as formas de sobrevivência possíveis, algumas até então longe da imaginação de muitos.

Bem à entrada da Santa-Clara, frente a um posto de abastecimento de combustíveis, a beira da estrada que sai da cidade de Ondjiva, Iris de Almeida, uma mulher na casa dos trinta anos, montou a sua tenda improvisada.No pequeno espaço de cerca de dois metros quadrados estãopenduradas peças diversas de roupa nova para adultos, adquirida no Lubango. No chão, estão vários pares de calçados de fardo para crianças.

O lugar seria estratégico para boas vendas por estar na via principal, mas para ela poucos têm sido os dias santos. Aquele que é agora o seu novo negócio só anda minimante quando são pagos os salários dos funcionários públicos. "De resto quase que  mais ninguém compra porque as pessoas aqui não têm dinheiro”, contou Iris de Almeida, que até quando eram catorze horas daquela terça-feira não tinha vendido uma peça de roupa se quer, sendo agora a única fonte de sustento da família.

Enquanto isso, um baú de plástico cheio de bolinhos fritos aguarda na tenda o regresso da filha da escola para ir vender na rua. Conta que esses dias têm sido bastante difíceis para sustentar a família. O marido fica sentado em casa porque o trabalho na agência de despacho de mercadorias na Namíbia parou, com o encerramento da fronteira.

 Residente em Santa-Clara há treze anos com o marido e quatro filhos, ida do Lubango, província da Huila, Iris dedicou-se sempre à confecção e venda de alimentos no parque dos camionistas que tiram mercadorias da Namíbia para Angola. Conta que era um negócio bastante lucrativo e cobria todas as necessidades do lar. Já as poucas casas prestadoras de serviços de informática na localidade, como impressão, cópias e plastificação de documentos, que ainda mantêm o seu funcionamento, hoje limitam-se apenas à tiragem de fotocópias de fascículos da população estudantil local, cuja procura é insignificante, como explica Emanuel Andrade, da gráfica Jacob Jamba.   Conta que com o fecho da fronteira algumas casas deste tipo de serviços não tiveram outra opção se não encerrar o negócio, porque deixaram de ter clientes que normalmente tratam de documentos para entrar na Namíbia.

 Despachantes lutam pela sobrevivência

Com cerca de quinze agências de despacho de mercadorias existentes em Santa-Clara, muitas delas com dificuldades de funcionamento desde a eclosão da crise económica e financeira de 2014 devido à quebra das importações, o Jornal de Angola constatou que talvez só metade do número mantém os serviços.   Nzola Miguel, da Abanca Despachante Nsumbo José, disse que está difícil a sobrevivência das empresas despachantes nesta altura que o país está a braços com a Covid-19. "A situação já estava precária com a escassez do dólar americano, agora piorou mesmo. Nós dependemos na totalidade das importações de mercadorias, e sem elas não há trabalho para nos mantermos aqui”, sublinhou.  Por falta de produtividade, conta, a empresa foi forçada a dispensar dez dos dezasseis funcionários.

Justifica que se antes da crise económica a agência efectuava cerca de 50 despachos por dia, caindo para metade na vigência, hoje com o fecho da fronteira esta cifra-se entre um a dois despachos por semana.  Com a escassez do dólar namibiano desapareceram também nas ruas vendedores de moeda estrangeira, vulgos kínguilas, crianças e adolescentes que comercializam pão, água e gasosa fresca em sacos. Joana Ga-briela, uma mulher que veio do Cuando Cubango há quinze anos e se instalou em Santa-Clara em busca de melhores oportunidades de negócios, conta que prosperou na venda de fruta nacional nos mercados da Namíbia, mas devido à situação da pandemia teve que optar por vender na via pública alguns produtos, como batata doce fervida para sustentar os cinco filhos abandonados pelo progenitor. Mas conta ser um ganha pão de muito sacrifício por causa das forças da ordem que não permitem vendas na via pública. 
Expatriados dominam comércio

O comércio geral em Santa-Clara é nos dias de hoje dominado por expatriados, como mauritanianos e eritreus, que têm os estabelecimentos comerciais e pequenos armazéns sempre apetrechados de mercadorias adquiridas na capital do país.

Serviços de hospedaria

Denominada Pensão La-faiete, a hospedaria foi uma das mais afamadas de Santa-Clara em anos idos, sobretudo quando prosperava o negócio de venda de carros usados. Com doze quartos, o estabelecimento viu a sua ocupação a cair drasticamente nesses últimos anos, mais grave ainda nesta altura da pandemia.

Sukama Oliveira "Zé Patrol”, proprietário da Pensão Lafaiete, referiu que o estabelecimento, actualmente, recebe apenas entre dois a três hôspedes por semana, quando antes tinha sempre os quartos preenchidos. Esta fraca procura dos serviços, disse, forçou o despedimento de cinco trabalhadores, para sobrar apenas com dois,  para evitar o encerramento.

Mas admite que tal so-brevivência não vai durar muito tempo por causa da insustentabilidade do negócio, numa altura que não param de serem cobrados os impostos e outros serviços como o da energia eléctrica e da água, que ainda estão a ser suportados com os pequenos serviços ainda em pé, como do bar e venda de cartões de recargas telefónicas. "Só não fechamos agora porque para reabrir dá sempre muito trabalho com a papelada exigida, além do dinheiro que se despende”, atirou Zé Patrol.

Domingos Calucipa | Ondjiva

Jornalista

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