Opinião

Sentimento nacional

A geração do meu tempo, hoje quase toda na casa dos 50, recorda, com certeza, de um slogan que, nos anos 1980, entrava nas nossas casas através da Rádio. Era no tempo em que a Rádio era não só a paixão de quem a fazia, mas nossa também, os miúdos dos musseques, rendidos à beleza da voz dos protagonistas. Ao recordar-me dela, ontem, um amigo e colega de profissão, que conhece o Jornalismo tal como eu me conheço a mim mesmo, garantiu-me que o dito é muito antigo, de Paulo Cardoso, e remonta ao tempo colonial.

28/02/2021  Última atualização 08H00
Seja como for, isso não vem ao caso. O certo é que me parece intemporal. Daria tudo para, no mínimo, cumprimentar o criador. Nestes tempos de Covid-19, nem que fosse para lhe dar umas cotoveladas, umas caneladas ou, até mesmo, curvar-me, em sinal de respeito e admiração, pelo enorme achado que, muitos anos depois, permanece actual e transversal. "Se não quer que noticiemos, não deixe que aconteça”, equivale dizer que, se não quer ir para a cadeia, não roubes; se não quer ser exposto, não corrompas, por exemplo.

Isto para reflectir sobre coisas que nos vão acontecendo nos dias de hoje, como o debate em torno de imagens recentemente publicadas de um agente a correr lá para os lados do Largo da Independência, com uma passada de meter inveja a João Tyamba ou a Aurélio Miti. Confesso que foi a primeira vez que vi um agente de trânsito a correr.
Desculpem-me a ignorância, mas a imagem que guardo destes "guerreiros” é de homens com postura séria, às vezes a roçar à arrogância, impondo a autoridade sobre os automobilistas, legais ou não, algumas vezes a distribuir ralhetes, por incumprimento do dever, pela mais pequena que seja a infracção. Depois, pensei que fosse um exercício, em pleno Sol das 12 horas, para manter a forma física e mental. Mas, depois, apercebi-me que, afinal, se tratava de uma fuga, para esconder-se da vergonha, ao ter sido flagrado a extorquir um cidadão.

Como a nossa sociedade anda mesmo muito estranha, a culpa, de repente, recaiu ao pessoal do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e da Inspecção Geral do Estado (IGAE), que deram o flagrante e mostraram a má conduta do servidor público. Esta reacção encheu-me de tristeza. Não somos nós mesmos que, ainda há pouco tempo, reclamávamos dos altos níveis de corrupção, impunidade e da alegada falta de Justiça? O que é pior afinal? Deixar o servidor público extorquir o pacato cidadão ou, quando autuado, em flagrante delito, apresentá-lo, para desencorajar actos semelhantes, já que, está mais do que provado que, males do género (aqui incluo a pequena e a grande corrupção), levaram-nos à situação actual de precariedade até moral? Honestamente, prefiro a segunda hipótese. E penso que qualquer angolano imbuído de sentimento nacional concordaria comigo. Julgo ser o mais sensato, o lógico e o moralmente correcto. E nesta coisa de combater a corrupção, a impunidade e outros males associados, noto, com estranheza, a postura adoptada por alguns elementos diante do grande trabalho em curso.

É verdade que é preciso investigar antes de prender. Um princípio básico que nem sempre é seguido. É verdade que, em coisas que têm que ver com a liberdade e honra do cidadão, todo o cuidado é pouco. É melhor deixar um criminoso à solta, do que colocar um inocente na cadeia. Mas é preciso não recuar diante de provas. Senão, a Justiça vira injustiça. Não sei se por descuido ou amnésia, já há quem enxergue maldade, aproveitamento político, num trabalho de moralização da sociedade. Não me parece sensato criticar hoje o que ainda ontem defendíamos como prioridade. Se antes tínhamos sede de Justiça, como justificar que cidadãos (oposição incluída), que andaram à vida a apontar a corrupção, impunidade, falta de justiça e desvios do erário como entraves ao desenvolvimento, venham hoje criticar, exactamente, o combate cerrado a estes males? Antes era a alegada falta de Justiça, hoje é Justiça, mas selectiva. Mesmo diante de evidências, de governantes e servidores, a vários níveis, serem responsabilizados.

A PGR fala em centenas de processos-crime de peculato, tráfico de influências, corrupção, branqueamento de capitais. Só no Cuando Cubango, há mais de 40 em curso. Muitos que se diziam inocentes, injustiçados, devolveram os bens (e que bens!) adquiridos de forma desonesta (na confissão dos próprios). A IGAE garante que o trabalho vai continuar e ainda com mais empenho. Quer dizer, vem aí mais inspecções, para encontrar e responsabilizar aqueles que insistem em más práticas.

À medida que a cruzada prossegue, coisas estranhas começam a surgir. Há até políticos de bancadas opostas solidários com as supostas vítimas. Como em todas as sociedades, corrupção não é monopólio do partido que governa. Bem vistas as coisas, entre nós, há igualmente pessoas de outras famílias políticas com fortunas, sem que se lhes conheça heranças a condizer. Se todos concordámos que o mal nos atirou para o estado actual de precariedade (até moral), negar a mudança posiciona-nos exactamente ao mesmo nível daqueles que tanto mal fizeram ao país.
Unamo-nos à causa. É preciso resistir a esta tentativa de forçar o retrocesso. Deve ser uma questão de sentimento nacional. 

Cândido Bessa

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