Opinião

Ser cidadão: poder e dever sê-lo!

Conhecemos o Zé no Huambo. Anos 80…! Já tinha o ar esgrouviado com que nos habituou e que lhe dava um “estilo só seu”. Castiço. E criativo. Muito activo. Amigo de um amigo nosso, era uma figura que não passava despercebida, apesar de -naquela altura - não ser ainda possível adivinhar o papel que viria a desempenhar.

28/02/2021  Última atualização 08H00
A agronomia, num país como Angola, tem a vantagem, para quem com ela lida realmente, de obrigar a estar perto das pessoas. E de levar-nos a viver as suas dores. Os seus problemas. O Zé escorregou do verde dos campos para as condições insalubres dos musseques: envolveu-se na vida dos pobres nas cidades. Sempre sensível às periferias. E foi muito dinâmico. Construiu a sua organização, deu-lhe um bonito nome que se parecia com "o Mundo”, e que em umbundo significa "união”. União que pretendia: para a luta contra a injustiça e para dar voz aos mais desfavorecidos. Que são, habitualmente, os que menos palco têm, quando deviam ser o grupo social para cujos direitos o Estado mais deveria olhar. E ouvir. O Zé, na sua simplicidade, e com as suas longas barbas cada vez mais grisalhas, tornou-se um ícone, que nos ficará na memória. Lutava pela terra. Pela habitação. Pelas pessoas. Pela nossa terra! Demonstrando-nos o que, na sociedade civil, se pode fazer para ajudar a despertar o Estado quanto à sua função de resolver os problemas daqueles que mais precisam. Para nos ajudar a ser país. De todos.

Defender a democracia, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos e da sociedade civil na resolução dos problemas nacionais, é obrigação do nosso Estado, estabelecida pela alínea l) do artigo 21º da Constituição.
E é igualmente uma obrigação de todos, devendo o Estado criar as condições para que todos possam participar na sua construção e defesa.
O primeiro passo é a consciencialização do cidadão - assente no acesso à informação e ao conhecimento. Ser cidadão implica sair da "zona de conforto”, e retirar ao lazer o tempo que colocaremos à disposição da sociedade para ajudar a corrigir o que está mal.Implica denunciarmos o que não está correcto. Ajudarmos os que precisam. Fiscalizarmos o que se faz com os recursos que são do país, colectivamente nossos.

E isso requer organização. Associação. Que pode ser qualquer: no colectivo de moradores, na igreja,no clube desportivo, na associação dos naturais, na "organização não-governamental”, na associação estudantil, ou de qualquer grupo profissional. E também em organizações partidárias. O importante é a disposição de trabalhar em prol da comunidade. Junto à comunidade e pela comunidade.
O Estado tem o dever de facilitar essa "onda cidadã”, ouvindo-a e estando atento ao som que vem dos quatro cantos do território. Ouvir. Ouvir, respeitosamente ouvir. Tendo a preocupação de não deixar escapar um som, para que possa orientar as suas acções no sentido de satisfazer as necessidades de todos. Sem que ninguém fique para trás.

O Estado tem que perceber que as críticas, as opiniões, são contribuições para que juntos se possa fazer um trabalho melhor para bem do país e das suas gentes. O cidadão nunca é um adversário. É sempre alguém com quem se tem que criar sinergias. Pois é o objectivo último de qualquer acção de quem o deve representar. E isso não significa que tenhamos que estar todos de acordo, sempre. Mas temos que estar todos de acordo em debater. Apresentar novas ideias. Ouvir as opiniões alheias.

Será certamente isso um Estado democrático (para lá do "conceito” de democracia que, de forma puramente política e eleitoral se costuma defender). Que valorizao esforço nacional dessas contribuições cidadãs, sempre que as mesmas respeitem os princípios constitucionais, não usados de uma forma sectária.
Necessitamos de um Estado com valores firmes, que sejam o farol na actuação de todos. Onde se exige de quem governe (responsável pelo funcionamento do aparelho do Estado) que, antes de mais… perceba, aceite e aplique.

Recaindo sobre os cidadãos - e as suas organizações civis - a responsabilidade de cultivar um sentimento nacional vigilante e crítico, através do acompanhamento de todos os actos que afectem a coisa pública, garantindo a actuação digna e a probidade de parte dos servidores públicos. O que dará verdadeiro significado às eleições - a nível autárquico e nacional - onde o povo deve escolher aqueles que julga mais capazes de atender tanto às necessidades locais e diárias, como de construir esse Estado Democrático de que precisamos.
Neste contexto, é oportuno recordar o que escrevia um pensador da nossa terra,em defesade um debate "pela inclusão do que foi posto à margem”:

"(...) reconhecer que tanto a democracia de uma maneira geral, como o acto de votar em particular, são de facto actos de cultura. E admitir que no caso angolano temos na realidade muito serviço pela frente. E que temos de levar muito a sério, se quisermos ser minimamente honestos e conscientes, a cultura e a tradição de relação do poder com a maioria das populações angolanas...”
Não temos dúvidas que - para tirar o país do estado em que está - temos, todos, que pensar (e agir) muito mais como cidadãos.

Apusindo Nhari

Jornalista

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