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Sete desafios do Presidente Biden

Ao meio-dia de Washington (18 em Angola), Joe Biden tomou posse, na quarta-feira, como o 46º Presidente dos EUA, numa Washington com segurança máxima e quase vazia de gente, por causa da pandemia. Pela frente, desafios perfilam-se, à espera do novo morador da Casa Branca. O artigo é do jornal Diário de Notícias

23/01/2021  Última atualização 21H15
© Fotografia por: DR
Em Janeiro de 1989, Ronald Reagan estava de saída da Casa Branca, mas não o quis fazer sem deixar um bilhete ao seu sucessor. O actor tornado político pegou, portanto, no que estava mais à mão - um bloco de papel decorado com um cartoon da humorista Sandra Boynton, composto por uma série de perus a subir para cima de um elefante deitado (símbolo do Partido Republicano de ambos) e a frase "Não deixe que os perus o derrubem". E escreveu: "Caro George, vai haver momentos em que vais querer usar este papel. Então, fá-lo." Saudando as memórias que tinha com o seu Vice-Presidente, Reagan despedia-se, garantindo: "Vou ter saudades dos nossos almoços de quinta-feira. Ron."

Passadas três décadas, a última coisa que se esperava era que Donald Trump deixasse um bilhete de despedida a Joe Biden, quebrando assim uma tradição que se manteve em todas as passagens de poder em Washington, entre derrotado e vencedor, como Bush e Bill Clinton, em 1993.

O republicano não deixou de desejar sorte ao democrata, escrevendo: "O seu sucesso é agora o sucesso do país. Estou a torcer por si. Boa sorte. George." Quando, quarta-feira, o democrata Biden jurou sobre a Bíblia, o antecessor republicano nem sequer esteve no Capitólio a assistir à cerimónia.

É esta América, mais dividida do que nunca, que Biden, o segundo católico Presidente, herda, tornando os seus primeiros meses na Casa Branca um desafio ainda maior do que é habitual. Ou vários desafios, que começaram pela própria tomada de posse.

Sob ameaça

Ao meio-dia em ponto (18.00 de Angola), Joe Biden prestou juramento na escadaria do Capitólio, tornando-se no 46º Presidente dos Estados Unidos. Seguiu-se o tradicional discurso e depois o caminho até a Casa Branca. Tudo normal, excepto, talvez, o cenário à sua volta. Depois do assalto ao Capitólio, por apoiantes de Trump, a 6 de Janeiro, que terminou com cinco mortes, as autoridades federais aumentaram ainda mais a segurança em torno da cerimónia de posse. As ameaças sucederam-se, com grupos de extrema-direita e pró-Trump a prometerem acções armadas.

Da responsabilidade do Secret Service, a agência que garante a segurança dos Presidentes e altos quadros do Estado americano, a operação contou, desta vez, com o apoio da Polícia de Washington DC e da Guarda Nacional. Foram 25 mil os guardas nacionais, que na última semana chegaram à capital federal - em 2017 foram 8.000 a garantir a segurança na posse de Trump.

O Pentágono deu ordem para que alguns militares estivessem armados, como se viu pelas imagens de homens com espingarda e semiautomáticas em torno do Capitólio. Uma das principais tarefas das forças de segurança era garantir que as restrições à circulação fossem respeitadas. Os americanos foram aconselhados a não se deslocar para a capital e o próprio Joe Biden, que, na segunda-feira, devia fazer a viagem de comboio desde o seu estado do Delaware (como fez todos os dias nas longas décadas em que foi senador) acabou por desistir, por motivos de segurança.

No Capitólio e no Mall, o cenário foi muito diferente das tomadas de posse anteriores. As cadeiras estiveram espaçadas, os rostos cobertos de máscaras e a multidão de apoiantes que se costuma juntar na imensa alameda, que vai do Capitólio ao monumento a Lincoln, não se viu.
Afinal, estamos em plena pandemia de Covid-19, que já fez mais de 400 mil mortos nos EUA.


Responder à pandemia

Mal se declarou vencedor das presidenciais de 3 de Novembro, Joe Biden logo começou a trabalhar, para encontrar uma solução para a pandemia de Covid-19. Criou uma "Força Tarefa” para gerir aquela que muitos consideram ter sido a pior resposta dada pela Administração Trump.  O Presidente cessante começou por negar os efeitos do que chamou de "gripe da China", recusando usar máscara em público e continuando com os comícios, mesmo quando as autoridades de saúde recomendavam distanciamento social. E nem quando ele próprio ficou infectado pareceu recuar. Agora, organizar a campanha de vacinação é a prioridade de Biden, empenhado em gerir a produção, distribuição e administração das centenas de milhões de doses capazes de proteger os americanos.

Os EUA são o país com mais casos, no total, no mundo: perto de 25 milhões de infectados. E para tentar cumprir a sua promessa de cem milhões de vacinados, nos primeiros cem dias da sua Administração, a equipa de Biden vai gastar mil milhões de dólares, numa campanha publicitária para convencer os americanos a se vacinarem.


Salvar a economia

E se a saúde é a primeira a sofrer com a Covid-19, a economia vem logo a seguir. Para tentar amenizar os efeitos da pandemia, Biden já anunciou um ambicioso plano de recuperação de 1,9 biliões de dólares, que inclui 400 mil milhões, para acelerar o plano de vacinação, aumentar os subsídios de desemprego e expandir os orçamentos dos estados e das cidades mais afectadas pela pandemia.

Com maioria em ambas as câmaras do Congresso - depois de uma espectacular vitória dos dois candidatos democratas ao Senado, numa segunda volta na Geórgia -, o Presidente democrata tem agora mais hipóteses de ver os seus planos aprovados. Mesmo se as margens mínimas - no Senado a maioria democrata depende do voto da vice-presidente Kamala Harris - podem deixar o sucesso ou fracasso da Administração Biden nas mãos de alguns senadores moderados, que podem não concordar com medidas mais radicais. Os números do desemprego mostram bem o impacto da pandemia na economia americana. Em Janeiro de 2020, andavam pelos 3,6%, em Julho chegaram a um recorde de 14,7% e o ano termina com 6,7% de desempregados. Apesar de tudo, a economia americana parece estar a recuperar mais rapidamente do que muitas das europeias. E as previsões para 2021 são de um crescimento de cerca de 4%, depois da contração de 2,5% em 2020.

A manter-se este cenário, e se uma terceira vaga de Covid-19 não estragar os planos, o Presidente Biden espera mesmo apresentar um pacote de recuperação a longo prazo, logo em Fevereiro ou mais para meio do ano, que vai investir na reforma da saúde, mas também na educação, infra-estruturas e energias limpas, tudo financiado pelo aumento dos impostos às empresas e aos mais ricos.


Uma América mais verde

Voltar a colocar os Estados Unidos no Acordo de Paris, logo no primeiro dia como Presidente. Esta foi uma das promessas de Joe Biden durante a campanha, com o novo Presidente democrata a fazer do ambiente e da luta contra as alterações climáticas uma das bandeiras da sua presidência. Aqui, não podia estar mais em contraste com Trump. Após quatro anos de Administração Trump, "o impacto nas emissões foi significativo, mas os decretos presidenciais (que anularam várias medidas de protecção ambiental) foram apenas uma parte", explicou à Axios Trevor Houser, especialista da empresa de investigação Rhodium Group. Para ele: "O maior impacto foram quatro anos de políticas federais desperdiçadas." Para Biden, o objectivo imediato é conseguir uma rede eléctrica livre de carbono, até 2035 - actualmente, dois terços da electricidade dos EUA provém de fontes como o gás natural e o carvão. A  mais longo prazo, o objectivo seria uma economia 100% livre de carbono, até 2050. Hoje, 80% da energia consumida nos lares americanos é produzida através de gás natural ou carvão. São medidas radicais que terão de enfrentar a fúria de lóbis poderosos para se concretizarem.


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