Opinião

Singapura não era antes o que é hoje

Filomeno Manaças

Jornalista

Singapura não era antes o que é hoje. A pequena cidade-Estado que hoje está na boca do mundo, por ter conseguido realizar um milagre económico, saindo de uma situação de país economicamente atrasado, com altos índices de corrupção, para ganhar o estatuto de praça financeira internacional (a quarta mais importante do mundo), onde o modernismo está presente em cada canto do território, teve de se empenhar a fundo em várias frentes para dar a volta ao texto.

09/04/2021  Última atualização 06H30
Transformar Singapura num país com uma economia robusta e uma das mais ricas do mundo (o seu PIB per capita está estimado em 56.112 dólares) levou quatro décadas de trabalho árduo. O crescimento económico, sustentado na rápida industrialização, na modernização tecnológica e do sector de prestação de serviços, foi determinante para transformar o país num importante centro de transportes marítimos e como destino turístico.
 Tudo isso só foi possível graças a políticas combinadas, implementadas em vários sectores, onde, a par de medidas de rigor, da dureza na penalização de actos ilícitos, também foram adoptados sistemas de incentivo que acabaram por ter um grande impacto na mudança de mentalidade ao nível da sociedade, fazendo com que o comportamento cívico do cidadão seja um dos elementos que infunde confiança ao ambiente de realização de negócios.

 Dois nomes despontam entre as figuras que fizeram com que Singapura saltasse da condição de um país do Terceiro Mundo para uma economia do Primeiro Mundo: Lee Kuan Yew, um advogado formado em Cambridge, no Reino Unido, que foi Primeiro-Ministro durante 31 anos (entretanto, já falecido, e que saiu da cena política em 1990), e Goh Keng Swee, que foi seu vice-Primeiro-Ministro, entre 1973 e 1984, doutorado em Economia e considerado o arquitecto das reformas económicas.

 Ao lado de Singapura, vamos encontrar, no mesmo diapasão de mudanças, a Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan, países que conheceram altas taxas de crescimento e rápida industrialização entre as décadas de 1960 e 1990. Incorporada nessa dinâmica de transformações, emerge também a China, hoje incontornavelmente uma das maiores economias do mundo.

Em todos esses espaços territoriais, o combate à corrupção ocupou um lugar especial na agenda política, condição sem a qual todos os esforços estariam votados ao fracasso. Chegar ao nível a que esses países se colocaram exige quadros altamente qualificados, uma educação e ensino de qualidade, um sistema de triagem/decantação das valências de cada um e uma remuneração de acordo com as suas competências. Enfim, toda uma política coerente e consequente de valorização da meritocracia. E tudo começa/começou em se prestar particular atenção à qualidade da formação.

Reinventar o Estado tem sido tarefa que tem ocupado uma boa parte do espaço de tempo de políticos que têm por missão governar. Uns com uma visão mais esclarecida, outros nem tanto assim. E nem sempre essa tarefa tem sido fácil. De acordo com a dimensão e complexidade dos problemas de cada país, podemos ver medidas mais ou menos duras a serem adoptadas, ou ainda uma combinação de várias acções.

 Olhando ainda para o continente asiático, é possível avaliar a dimensão do desafio de reformar o Estado pela opção feita pelo Presidente Rodrigo Duterte, das Filipinas, com os riscos políticos que lhe estão inerentes, de combater o tráfico de drogas, através de operações militares para eliminar os traficantes e os consumidores, e de, por ter feito essa escolha, ser acusado de estar a descurar a reforma tributária e demais mudanças prometidas durante as eleições.

 Um outro ângulo da reforma do Estado é-nos dado a ver pela experiência do Brasil, durante o mandato do Presidente Lula da Silva, que permitiu tirar um considerável número de cidadãos da condição de indigentes e transformá-los em classe média, em consumidores que impulsionaram o crescimento da economia brasileira. Em apenas dois mandatos (1 de Janeiro de 2003 a 1 de Janeiro de 2011), de quatro anos cada, o ex-sindicalista metalúrgico deixou na Presidência brasileira uma folha de serviço que ainda hoje é apontada como referência, em termos de gestão macro-económica, de revitalização da economia e da própria sociedade brasileira, esbatendo muitas das assimetrias que contribuem para que o país, apesar do seu potencial económico e da sua grandeza territorial, apresente níveis de pobreza que suscitam as mais diversas leituras sobre o fenómeno, suas origens, acompanhamento e tratamento que está a merecer das autoridades.

 A partir de 2017, Angola começou a sacudir-se das mazelas que vinham e têm estado a emperrar uma reforma profunda do Estado. Entre os vícios a combater, estão a corrupção e a impunidade. A mesma caminhada que outros já fizeram, teremos de cumprir. É vasta a experiência que temos à nossa disposição, para consultar e aplicar o que de melhor há e se afigura mais ajustado à nossa realidade. O tempo que as mudanças levaram a ser implementadas e a produzir efeitos não pode ser ignorado. O contexto em que elas tiveram lugar também não! O ambiente económico e financeiro mundial era mais favorável e não havia a pandemia da Covid-19. Esses dois elementos de pressão fazem com que se tenha de valorizar ainda mais a actuação e a gestão económica que tem vindo a ser feita pelo Executivo angolano.

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