Cultura

Sob o signo da Rumba Congolesa

Analtino Santos

Jornalista

As cidades de Luanda e Benguela entraram, mais uma vez, na rota das celebrações do Dia Internacional do Jazz. Desta feita, a jornada comemorativa em Angola ficou marcada pelas homenagens a Waldemar Bastos, Manu Dibango e à Rumba Congolesa.

09/05/2021  Última atualização 15H11
Dia Internacional do Jazz © Fotografia por: Edições Novembro
Com a produção e o envolvimento da Americans Schools of Angola, da Unesco e do Executivo angolano, fizeram parte da festa do Jazz, em Luanda, a banda que acompanhava Waldemar Bastos, bem como Ricardo Lemvo, Yamandu Costa, As Marias, Filipe Mukenga, Totó ST, Anabela Aya, Angojazz, Projecto Etokeko Jazz e Esperança Mirakiza; em Benguela Pop Show e Dodó Miranda.

As comemorações do Dia Internacional do Jazz em Angola também enquadraram-se no âmbito da II Bienal para a Cultura da Paz, que acontecerá em Outubro em solo nacional. Vincenzo Fazzino, director do escritório das Nações Unidas em Angola e coordenador internacional da Bienal de Luanda, o embaixador Diekumpuna Sita José, coordenador do comité nacional e de gestão da II Bienal para a Cultura de Paz e Marcos Agostinho, director executivo da Americans Schools of Angola, o principal patrocinador do evento, acompanharam os três dias de celebração do Dia Internacional do Jazz. Jerónimo Belo e Dinamene Cruz foram alguns dos amantes de Jazz presentes, bem como o jornalista Reginaldo Silva, amigo de Waldemar Bastos. A nosso pedido, Reginaldo Silva escreveu especialmente a caixa dedicada ao cantor, regressando assim ao tempo do seu engajamento no jornalismo cultural, desde os idos anos 80, quando assinava textos nos programas da RNA "Quintal do Ritmo”, "Encontro com a nossa música” e "Música Austral”.   

Banda Ango-Jazz  
Uma das atracções-surpresas foi a banda Ango-Jazz, liderada pelo pianista Dimbo Makiesse, um projecto musical composto por jovens que têm em comum o objectivo de retirar a carga elitista ao jazz e fazê-lo chegar a um público mais eclético. No seu alinhamento constavam temas como "Yuzi”, "Nuluzi” e  "Hit the road Jack”. Os jovens, durante as suas apresentações,  patentearam um repertório Jazz que reflecte a cultura nacional, do tradicional ao moderno, tocando assim grandes standards com influências do Kilapanga, Semba, Massemba, Cianda e muito mais. Dimbo Makiesse (piano), King Jaime (baixo), Carlos Praia (guitarra eléctrica), Jackson Nsaka (bateria), Ataíde (sax e saxofone tenor), Benjamin Afonso (trompete) e Jay Lourenzo (voz) são os constituintes da Banda Ango Jazz, criada no dia 24 de Maio de 2019. 

No ano passado eles foram a opção de Jerónimo Belo, para que o 30 de Abril não passasse em branco em Angola, tendo sido os convidados do programa Clube de Jazz Especial da TPA, alusivo ao Dia Internacional do Jazz.  Este ano, mais uma vez, com o apadrinhamento de Jerónimo Belo, fizeram um especial para o programa da TPA, que moveu os seus equipamentos para o Porto de Luanda. A Banda Ango-Jazz colabora com várias organizações nacionais e internacionais, nomeadamente a SADC (Akwafrica), The Fusion Jazz (África do Sul), Camões e outras.
Ricardo Lemvo actuou.

O Jazz, como atesta a história, tem como um dos principais pontos de referência Congo Square, numa tradução livre, a quadra dos provenientes do Congo, o famoso mercado de New Orleans, nos Estados Unidos da América, país onde o angolano Ricardo Lemvo reside e de lá partiu para encerrar a festa do Dia Internacional do Jazz na Fortaleza de São Miguel, em Luanda.

Ricardo Lemvo apresentou-se com o suporte instrumental da Banda FM e não fugiu aos ritmos latinos. E, claro, levou ao palco temas dos principais nomes da Rumba Congolesa como Grand Kallé, Francó e outros.  Temas como "Valéria”, "Habari Yako”, "Tata Samba”, ”Isabela”, ”Ficofico cocó”, "Nvunda Ku Musseque”, "São Salvador”,  e outros, ajudaram a fechar a noite. A cubana Yanete partilhou o palco com Lemvo em "Elbette”. E Anabela Aya exprimiu a sua sensualidade num outro dueto.

Sam Mangwana é outro angolano que foi agendado para o casamento entre o Jazz e a Rumba Congolesa. O músico que trabalhou e tem trabalhado com os principais nomes da Rumba Congolesa, e que, seguramente, é dos artistas mais aclamados e respeitados no cenário artístico africano, sendo uma das poucas estrelas da Rumba Congolesa no activo, participou na festa do Jazz de modo virtual. 

Importa fazer referência à mesa-redonda (online) com pesquisadores, artistas e intelectuais que abordaram o tema "Os valores do Jazz, a cultura de Paz e a candidatura da Rumba Congolesa como Património Imaterial da UNESCO”.
Filipe Mukenga, Toto ST, Anabela Aya e Esperança Mirakiza também abrilhantaram e mostraram a linguagem do Jazz feito e proposto pelos angolanos. O Projecto Etokeko Jazz, liderado pelo pianista Nino Jazz, também director artistico do festival, acompanhou os artistas.

Da "legião estrangeira”, As Marias, grupo feminino de Moçambique, se na primeira noite estiveram algo tímidas, na segunda se apresentaram mais ousadas na apresentação do seu Jazz Fusion. O virtuoso violonista (assim é chamado no Brasil) Yamandu Costa prendeu os espectadores com uma actuação marcada pelo diálogo entre culturas e ritmos. Com a sua viola de 7 cordas, chamou o português Chico Pinheiro, com a viola portuguesa e o argentino Martin Sued com o bandolim e partiram para uma viagem onde o Choro e algumas vezes o Samba encaixavam-se no Fado e no Tango. Esta foi a estreia mundial desta proposta de Yamandu Costa com os colegas, constituindo um dos momentos "menos Jazz”, onde o espírito dos Jazzmen esteve mais em evidência: improvisação, experimentação e abertura para outros ritmos, porque Jazz é abertura e inclusão.

O Dia Internacional do Jazz em Angola começou a ser celebrado em 2013, por iniciativa de Jerónimo Belo. A partir de 2019 a representação da Unesco em Luanda juntou-se às comemorações. A celebração foi criada pela Conferência Geral da Unesco em 2011, por iniciativa do Embaixador da Boa Vontade Herbie Hancock. Em torno da data países e comunidades de todo o mundo celebram o Jazz e o papel que esta expressão musical desempenha na promoção do diálogo, no combate à descriminação e na promoção da dignidade humana. Segundo defende a Unesco, o Jazz é muito mais do que música, é uma mensagem universal de Paz, a aliança harmoniosa de um ritmo que carrega valores caros a todos e oferece perspectivas preciosas de compreensão mútua.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura