Opinião

Sobre a liberdade de pensar

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Períodos e épocas da história da humanidade houve em que as instituições e as organizações, as pessoas e as sociedades, a dada altura, pensaram que restringir e até mesmo controlar a liberdade de pensar era a fórmula para que se pudesse conseguir estabilidade social e desenvolvimento.

08/06/2021  Última atualização 06H45
Nos últimos cinquenta anos temos sido testemunhas de uma aceleração inusual do estimular o livre pensamento, de dar mais espaço e importância aos saberes diferentes, as iniciativas individuais sólidas e a possibilidade de experimentar mudanças radicais, em todos os domínios e sectores da vida social, política, económica, científica, tecnológica e, no geral, cultural que permitem saltos qualitativos na qualidade de vida dos cidadãos.
Adoptando uma perspectiva mais inclusiva das políticas de empoderamento, de justiça social e de desenvolvimento, fazendo coexistir múltiplas velocidades e soluções em dependências da situação nas zonas urbanas, periurbanas e rurais do nosso país, precisamos estimular a liberdade de pensamento e encontrar a melhor maneira de fazê-lo circular, de que ele seja divulgado, seja partilhado e seja discutido de modo abrangente e profundo, no espaço público, lugar em que ele é, de facto, mais útil. 

Muitas vezes deparamo-nos com quem lida muito mal com o contraditório, com o dissenso, com a diferença e com a atipicidade: têm uma notória incapacidade de ser tolerantes, de permitir que, antes de impôr um ponto de vista é melhor que se forme à volta de uma ou de mais pessoas o consenso que facilita o respeito pelo outro, pela sua pessoa, pelas suas formas e pelas suas ideias. A tolerância e o respeito são a antecâmara que permite uma maior liberdade de ser, de estar, de pensar e de agir. Pensar livremente, na prática, é algo que deveria ser simples, mas nem sempre o é. Pensar faz parte da condição humana, mas todos os indivíduos são distintos: captam, registam, reflectem, processam, interpretam e, cada qual, vivencia a seu modo, uma mesma experiência e pode optar por soluções muito díspares para solucionar um mesmo problema. 

Desde as coisas mais simples, - um brinco na orelha, uma tatuagem no pescoço ou ter o cabelo como quiser -, às coisas mais complexas, - o gosto musical, a orientação e o comportamento afectivo e sexual, a opção religiosa ou a ideologia política -, podem ser motivos que justifiquem a intolerância de uns face às diferenças de outros: é como se desconhecessem que, em rigor, aprendemos mais com o que é diferente e inesperado do que com o que é previsível e semelhante.

O que faz com que algumas destas coisas que têm que ver com "a aparência”sejam tomadas por outros como se dissesse respeito "às essências”é a incapacidade de entender o valor da liberdade individual que, - sabemo-lo todos -, termina ali onde começa a liberdade de outrem e as normas e os límites que, por lei, uma sociedade dada define para si mesma. Existem muitos factores que podem interferir no entendimento que se tem do que é superficial e irrelevante para o conhecimento de um indíviduo daquilo que é efectivamente, essencial para compreender os seus actos e posturas, sendo que a maior parte delas depende de uma escolha pessoal. 

Nem sempre as normas e os límites que, por Lei, uma dada sociedade define para si mesma são os melhores: o colonialismo e os totalitarismos são a maior prova de regimes injustos, cujas leis permitiram a exploração de uns sobre outros, no primeiro caso, ou o desenvolvimento da repressão e da ditadura, no segundo: em ambos os casos inibindo o pensamento livre. Razões de ordem religiosa, educativa ou política podem estar na base de variadíssimas inibições, proibições e constrangimentos, que inibem o desenvolvimento harmonioso das sociedades: não importa qual o seu carácter, o certo é que as piores razões são de certeza aquelas que constituem um freio e limitam a liberdade de pensar livremente. Pensar sem quaisquer constrangimentos é um dos maiores prazeres que a liberdade nos pode dar. 

Sem liberdade de pensar associada à liberdade de ser, a liberdade de estar e a liberdade de agir, as nossas vidas fazem pouco sentido. O que se espera dos angolanos é que possam valorizar, cada vez mais, a originalidade do pensamento individual, libertá-lo de condicionalismos partidários, religiosos ou morais:livres, cultos e justos poderão ajudar a melhor transformar a mentalidade dos cidadãos e, depois, acelerar as mudanças sociais, políticas, económicas e culturais que tanto necessitamos, tendo em conta que a maioria da população é jovem. 

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