Opinião

Tortuosos caminhos da liberdade (II)

Início a segunda etapa desta caminhada tortuosa da lembrança que decidi empreender.

22/11/2020  Última atualização 13H59
A minha idade, educação, modo de ser e estar na vida, desviam-me dos perigosos barrancos da virulência extrema que vejo na palavra fácil de alguns príncipes da maldade e do obsceno que andam por aí. Impedem-me a precipitação no abismo da palermice de falar pelo simples gosto de falar, e obriga-me também a anotar que o usufruto dessa liberdade de expressão de que fazemos alarde hoje, ainda há pouco amordaçada, não contou com o esforço dessa gente. Felizmente que me coloco à distância deles, essa não é a minha identidade.

Começo por esta breve paragem, também para me desculpar perante o público que faz o favor de me ler. As imagens dos cães alinhados com invejável perfeição no Lubango, referidas e comentadas no texto que assinei na semana passada, não tiveram nada a ver com manifestações, como poderia, ou terei sido mesmo, perfeita mas erradamente entendido.

As notícias que me chegam e de há muito, referem a existência de uma relação normal, o que significa boa, nos limites do possível actual, entre a população huilana e a autoridade policial local, resultado da postura e qualidade de serviço do Comandante Divaldo Martins. É um facto que a mim, particularmente, não surpreende. Não sou próximo, mas conheço o  responsável máximo da polícia na Huíla. O suficiente para certificar que falo de um dos mais estudiosos, educados e inteligentes quadros da nossa Polícia Nacional. O facto de ele escrever, e bem, empresta ao seu currículo um notável valor acrescentado.

"Raça difícil de gente, essa que se mete a escrever”. Já li ou ouvi algures esse tipo de mimo sobre quem enfrenta o público, escrevendo. Quem anda à chuva, molha-se, é dos livros, e somos todos, os que nos metemos nessas cavalarias, assim intitulados por pessoas menores, algumas que até se dizem amigas mas não deixam de ser menores. Refiro-me àquelas que nunca estão contentes com nada nem consigo próprias, embora não deixem de se mostrar felizes quando a palavra escrita não lhes parece assim tão transgressora, e até se convencem que é importante o que se escreve e o que se diz sobre eles ou sobre os seus partidários. Sinto o quanto me tem sido difícil escrever, deitar cá para fora o que me vai na alma para me sentir verdadeiramente aliviado, e de certa maneira, um cidadão livre.

Vem a propósito disto, muita coisa que tentarei periodicamente descrever nesta série. Há poucos dias, um amigo dos velhos tempos, de antigas cumplicidades na luta pela liberdade no tempo colonial, disse-me, sobre a manifestação de 24 de Outubro último: "Ninguém me contou, eu vi como os miúdos atiravam pedras aos carros, incendiavam pneus, a forma ordinária como se insurgiam contra os polícias!”. É claro que os polícias não são de ferro, sentem e ripostam à violência, disse-lhe eu, em resposta. "Há interferência política, há os que querem tirar partido da situação e esta não é a via ideal para se fazer política, porque depois chegamos facilmente aos lamentáveis acontecimentos do 11 de Novembro”, continuou o meu amigo.

Claro, meu kamba, o aproveitamento político é detestável, mas é necessário que te diga que eu próprio, há uns meses atrás, em Luanda, fui vítima da má preparação e falta de educação de dois polícias, ali mesmo no "meu território” da baixa, nos lados da Chá de Caxinde. Entendiam eles, armados com a farda e as armas que lhes são distribuídas, "rebocar” o meu carro e levar preso o meu assistente motorista, por razão que não a tinham. Não olharam para a minha idade, embora isso não fosse o suficiente para me dar razão, fosse qual fosse. Sujeitaram-me a um palavreado básico e nojento. Estive quase a ser empurrado para dentro do carro onde já estava praticamente detido o pobre do Domingos. Valeu-me um telefonema feito a um responsável da equipa do saudoso governador Luther Rescova, de inesquecível memória, um dos mais promissores quadros da Nova Angola que conheci, desaparecido ingloriamente. Quase de imediato surgiu no local da maka uma alta patente da polícia que em linguagem pedagógica e competente colocou em sentido os agentes impreparados que tiveram tremenda dificuldade, uma atitude que deve ser registada e pensada, de me pedirem desculpa, uma exigência feita pelo chefe comandante.

Entendi fazer este relato para reafirmar a convicção de que, assim o queiramos, vamos conseguir, não facilmente, é verdade, pôr este país na ordem. Virão, certamente, os do contra com a sua razão, e a raiva do povo descontente e dos polícias impreparados. O problema não está só na polícia como é fácil verificar, está no funcionamento de todos os sectores da administração pública, dirão legitimamente. Estarei, em grande medida, de acordo com eles, mas sempre argumentarei que, para caminharmos bem por estas veredas tortuosas temos, desde logo, de começar pela necessidade imperiosa de os chefes policiais – e todas as demais chefias – saírem dos gabinetes, e certificarem-se da vergonha que é a caça às quitandeiras e o frenesim que evidenciam pelos carros mal estacionados. Isso tem fácil explicação, e o que se apresenta como prioritário é o encontrar métodos para organizar, punir, e, em consequência, expulsar os que não conseguem entender que é com o povo disciplinado, que para o ser deve ser bem tratado, que se consegue chegar à plena liberdade.

Faço um pequeno desvio na picada e, por dever de consciência, sinto-me na obrigação de felicitar publicamente o Novo Jornal e o seu director Armindo Laureano, pelo magnífico trabalho jornalístico com que brindou o público na última semana, uma edição dedicada aos 45 anos da nossa Independência. A qualidade da grande maioria dos textos produzidos, a diversidade de autores e a pluralidade de opiniões expressas, os nomes das individualidades participantes, algumas delas titulares de cargos de enorme responsabilidade, os quadros angolanos e os amigos de Angola espalhados pelo país e na diáspora, deixam-me, apesar de todas as dúvidas a que tenho direito de albergar no meu peito e pensamento, a certeza de que a esperança deve ser mantida, porque vamos vencer. Angola vai vencer e poderemos dizer um dia que valeu a pena não termos tido receio de falar.

Venceremos, sem dúvida nenhuma, se a exemplo do que fizeram as pessoas atrás referidas, ou seja, vir a público e enfrentá-lo, vierem estas ou outras com maior frequência, que saiam dos gabinetes e passem igualmente a mostrar a cara para que os conheçamos melhor, sejam eles políticos, dirigentes, ministros e gestores deste país, simples cidadãos sem títulos que sejam, para a população ficar com a ideia do seu valor, principalmente do seu pensamento em relação à Nação, à nossa Pátria, ao futuro de todos. Para que possamos votar em consciência quando chegar a hora, no futuro que não está longe. Se o caminho seguir direito, mesmo que tortuoso, tenho a certeza que haverá muita gente a viver da política e da ajuda partidária, a desistir e ter que mudar de rumo.

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