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Tunisinos lembram a data à espera da justiça social

A Avenida Bourguiba, símbolo da revolução tunisina que há 10 anos afastou do poder o regime de Ben Ali, estava quinta-feira deserta e sob vigilância policial, com o aniversário da revolta silenciado pelo confinamento.

16/01/2021  Última atualização 18H32
Devido à Covid-19, este ano, a Avenida Bourguiba, em Túnis, não teve a adesão popular © Fotografia por: DR
Segundo a AFP, apenas alguns jornalistas e residentes circulavam na principal artéria da capital, centro nevrálgico do regime de Zine el Abidine Ben Ali, que se tornou o centro da revolução, onde os cidadãos se reúnem habitualmente a cada 14 de Janeiro para reavivar a esperança de um futuro melhor.

"Normalmente teríamos pessoas a manifestar-se na avenida para pedir mais justiça social, porque os sucessivos governos, desde 2011, ainda não tiveram em conta esse pedido”, disse Alaa Talbi, presidente do Fórum Tunisino para os Direitos Económicos e Sociais.

"Mas neste 14 de Janeiro vou ficar em casa, pela primeira vez em 10 anos, porque a crise sanitária é grave”, adiantou.
Face à actual situação sanitária, a Federação Sindical UGTT e outras organizações renunciaram às manifestações, mas as reivindicações não diminuíram de intensidade.

"É necessário ser muito optimista para crer que a Tunísia está no bom caminho de concretização dos objectivos da revolução”, considera o diário estatal La Presse.
A subida dos preços, a persistência do desemprego e a fraqueza crescente dos serviços públicos, numa altura em que a pandemia acentua a precariedade, alimenta uma decepção à altura das esperanças nascidas em 2011.

A 14 de Janeiro desse ano, após várias semanas de tumultos desencadeados pela imolação pelo fogo de um vendedor ambulante no interior do país, uma multidão inédita concentra-se na avenida Bourguiba, diante do Ministério do Interior.
A cólera contra a miséria virou-se contra o regime e a multidão gritava "Rua”. Nessa mesma noite, Ben Ali foge para a Arábia Saudita, onde morreu em 2019.

A partida, após 23 anos no poder, foi seguida de levantamentos populares noutros países da região e da queda de outros autocratas, no que ficou conhecido como a Primavera Árabe. A Tunísia foi o único país a continuar a sua democratização.
"Podemos estar desiludidos, isso não significa que nos arrependemos: 10 anos é pouco para transformar um sistema que existe há décadas e podemos orgulhar-nos dos avanços”, disse Talbi.

"Instaurámos um novo sistema político, chegámos a acordo sobre uma Constituição, ainda que não esteja a ser posta em prática completamente, e respeitámos os prazos eleitorais”, explicou, adiantando: "Agora é necessária uma transição económica”.

A Tunísia, que depende largamente de doadores internacionais, concluiu na Primavera um programa de apoio do Fundo Monetário Internacional sem ter relançado a sua economia.
Depois dos atentados, em 2015, a pandemia voltou a fazer cair o turismo, deixando no desemprego dezenas de milhares de pessoas. A produção de fosfato e petróleo foi prejudicada por manifestações por emprego e infra-estruturas nas regiões marginalizadas e a classe política, dividida e paralisada por lutas de poder, tem falhado na acção.

A falta de perspectivas tem feito aumentar as partidas clandestinas para a Europa, que registaram o ano passado um pico inédito desde 2011. De 2019 para 2020 aumentou cinco vezes o número de tunisinos a chegar às costas italianas.
Mas "a juventude que cresceu numa Tunísia livre ainda acredita na revolução”, considera Talbi.

 
Combate à corrupção

O mesmo dia em que se comemorava mais um aniversário da revolução, um dos mais conhecidos empresários do país, Nabil Karoui, foi acusado de lavagem de dinheiro, num processo que data de 2017.
É a segunda vez que o candidato presidencial de 2019 está atrás das grades num caso iniciado, há 3 anos, após uma denúncia de uma ONG. Naquela época, o chefe do canal de TV Nessma, de 57 anos, era um dos favoritos para a eleição presidencial.

Karoui foi libertado três dias antes da ida às urnas e perdeu a oportunidade de fazer campanha. Nabil Karoui recuperou politicamente desde que perdeu a eleição, levando seu partido a concorrer em segundo lugar nas eleições legislativas que se seguiram à eleição presidencial.
A suspeita de lavagem de dinheiro e evasão fiscal pode limitar o futuro político do empresário.


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