Reportagem

Uma mulher preocupada com o próximo

As acções protagonizadas por Engrácia Verónica António, também conhecida por "Vera Nsaby", trazem à memória os programas brasileiros onde famílias carentes recorrem em busca de resposta para certos problemas.

31/03/2021  Última atualização 08H21
© Fotografia por: Santos Pedro| Edições Novembro
Com apenas 30 anos, Vera, como é carinhosamente tratada pelos mais próximos, lidera um grupo, na rede social Facebook, com cerca de um milhão de membros, entre angolanos e estrangeiros residentes no país e em várias partes do mundo, que se dedica a ajudar famílias desfavorecidas em Angola.  
As ajudas, resultantes de contribuições feitas pelos membros, consistem, entre outras, em entregas de bens de primeira necessidade, reparação e construção, de raiz, quando necessário, da casa da família necessitada, bem como a realização de seminários sobre culinária.  

Até ao momento, o grupo, com menos de dois anos de existência, já ajudou várias famílias em todo o país. A ideia para o lançamento da iniciativa, surgiu depois da criação de uma outra, virada para ajudar mulheres inexperientes na cozinha. Ao aperceber-se da existência de muitas com este problema, algumas já casadas, Vera, que se considera prendada na área, decide criar, no Facebook, o grupo denominado "Vamos aprender a cozinhar com a Vera”, para partilhar a sua experiência culinária com elas. A iniciativa atraiu muitas mulheres, sobretudo aquelas cujos casamentos já se encontravam à beira do fim por este motivo.

Houve mesmo situações em que ela teve de falar com os esposos, a fim de terem um pouco mais de paciência, com a garantia de que já as estava a ensinar a cozinhar. "Os esposos estavam aborrecidos, porque tinham a paciência de abastecer, regularmente, a dispensa de casa com comida, mas, depois, não conseguiam desfrutar delas, pois as esposas eram incapazes de levar uma refeição bem confeccionada à mesa”, lembra Vera. Sublinha que dar de comer bem aos outros, também é uma forma de demonstrar amor. Com este gesto, disse terem conseguido restaurar várias famílias. 

"A nossa satisfação, hoje, é o facto de estarmos a receber testemunhos de várias mulheres que conseguiram superar-se na cozinha e, em função disso, terem um lar mais feliz”, realçou.
Actualmente, além dela, outras meninas do grupo, também com conhecimento em culinária, dedicam-se a ensinar as menos experientes na matéria.  O sonho de Vera é ter uma cozinha. "Eu gosto de dar de comer as pessoas", aclarou.  
Vera não sabe explicar como nasceu nela o espírito de solidariedade, mas admite que tenha sido influenciada pela mãe, que, no passado, também ajudava o próximo.

 A progenitora vendia alguns produtos a grosso e, em muitas ocasiões, dava-os a kilape (a crédito) às vendedoras retalhistas, que apareciam sem dinheiro. "O fim único dela não era só vender, mas, sobretudo, ajudar quem precisasse”, recordou. Com a morte do padrasto, de quem guarda boas recordações, Vera Nsaby, que contava, nessa altura, 14 anos, sente-se obrigada a fazer alguma coisa para ajudar a mãe em casa.

 Lembra que o luto cumprido por ela era diferente do actual. "Não tem nada a ver com o que se verifica, actualmente, em muitas famílias: enterrou hoje e, no dia seguinte, a vida continua normalmente. A viúva ficava  em casa por muito tempo, sem grande espaço de manobra”, aclarou. Face a esta situação, Vera passa a cuidar  do negócio da mãe, no mercado da "Mamã Gorda", na Estalagem, em Viana.

Apesar disso,  sentiu necessidade de fazer mais. Em 2008, com apenas 17 anos, decide interromper os estudos para ingressar na Polícia Nacional. O desejo de envergar a farda foi alimentado pelo desenho animado "Rambo”, que passava na Televisão Pública de Angola. "Eu gostava de ver as meninas fardadas”, lembra, sorridente. Por completar 18 anos durante a recruta, é baptizada pelos instrutores com o nome "18 anos”. Vera diz não ter sido fácil concluir a recruta, tendo, ainda na segunda semana, pensado em desistir. "Para tomar banho era difícil. Havia tanta gente na fila. A comida não sabia a nada", recorda.


Sonha ser ministra
Segunda filha de cinco irmãos, Vera sonha chegar um dia a ministra da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, por entender que, a partir daí, conseguirá ajudar mais famílias. Está, neste momento, atrás de ajuda para conseguir uma parcela de terra onde pretende construir um centro de ajuda para mulheres. Um dos objectivos deste centro, explicou, será retirar adolescentes do mundo da prostituição e ensinar-lhe a lutar com dignidade na vida. "Uma sociedade com mulher destruída é uma sociedade sem futuro”, defendeu.


Ideia nasceu de histórias comoventes
A ideia para ajudar famílias carentes nasceu quando, certa vez, ao ver o programa "Fala Angola", da TV Zimbo, Vera depara-se com a história de uma jovem que implorava por comida.
"Ela passava muita fome", realçou. Entrou em contacto com a mesma, que até já era licenciada em Medicina, e, por via disso, ficou a saber de outros problemas que a família  enfrentava. "Viviam em péssimas condições”, salientou. Vera partilhou a história com os integrantes do grupo "Vamos aprender a cozinhar com a Vera”, tendo a mesma comovido o coração de todos. A solução encontrada pelos membros do grupo, para acudir aquela situação, foi a contribuição de valores. O dinheiro arrecadado permitiu não só colocar comida em casa dela, como, também, pagar a renda da casa. "Além disso, conseguimos enquadrá-la no sector em que se formou”, frisou.   

Dias depois, o mesmo canal televisivo voltou a passar outra história que abalou os pilares emocionais de Vera e de outras integrantes do grupo. Trata-se de uma senhora que procurava casas de óbito para se alimentar. O grupo voltou a unir forças e, mais uma vez, estendeu o braço à senhora. A partir daí, Vera começa a seguir bem mais de perto o o programa, para ver casos que podiam ajudar. Não levou muito tempo para, mais uma vez, confrontar-se com outra história dramática.

Diferente das duas anteriores, esta mostrava um ancião de 87 anos, que, depois de abandonado pelos filhos, passou a viver em péssimas condições, no município de Cacuaco. Foi acolhido por uma senhora, que também não dispunha de grandes condições em sua casa, que carecia de muitas obras. O grupo "Vamos aprender a cozinhar com a Vera” entra, mais uma vez, em acção, demolindo a residência, para, no seu lugar, erguer uma outra, já mobilada. O ancião Domingo António, que dormia num compartimento da casa que se parecia mais a um beco, passou a ter o seu próprio quarto. "Demos uma vida diferente ao mais velho” 


"O menino Mendinho”        
Enquanto a casa era construída, um adolescente de aparentemente 17 anos ofereceu-se para ajudar nas obras, sem contrapartida. Admirada com o gesto, Vera pergunta onde ele vivia. "Alí, naquela casa”, apontou uma residência bem ao lado da obra. Ela decidiu fazer uma visita a casa, para conhecer a família. É apanhada de surpresa. "Não queria acreditar! O menino vivia em condições piores que a da família que estávamos a ajudar, mas, nunca pediu para ser ajudado também”, conta. Vera lembra que chegavam a deitar material de obra que fazia falta em sua casa, mas, mesmo assim, nunca se pronunciou. Comovidos com a realidade do Mendinho, como é carinhosamente tratado, o grupo "Vamos aprender a cozinhar com a Vera” decide alargar o raio de acção, partindo, também, a casa do menino, para a construção de uma outra. "Foi a forma que encontramos para retribuir o gesto de bondade”, disse.    

César Esteves

Jornalista

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