Opinião

Velozes e furiosos? Também os temos …

Nos últimos tempos, cultivou-se - e parece estar a florir -, entre nós, a ideia de que quem está ao volante de uma dessas viaturas bem grandes tem legitimidade para conduzir a alta velocidade e fazer das ruas o seu reduto privado.

22/11/2020  Última atualização 13H56
Circulam nas nossas estradas uns carros grandalhões, pretos ou de pouquíssimas outras cores, cujos condutores - não necessariamente os legítimos proprietários, porque alguns são motoristas ou lhes foi emprestado e outros têm-no por força do cargo que ocupam - estão permanentemente apressados.

É vê-los, quase invariavelmente, a pedir prioridade na passagem, ora com os intermitentes ligados, ora com os incómodos e invasivos jogos de luzes, cuja presença fazem anunciar, com frequência, ainda muito distante do "obstáculo” a ultrapassar. Não poucas vezes, dão-se a conhecer pelo som estridente e o colorido da sirene, que propagam a urgência que os faz mover, num frenesi sequer perdoável a quem tenha o segredo para a cura da Covid-19.

Estes condutores, velozes e furiosos, estão despidos da mínima prudência e das normas mais básicas que regem a vida em sociedade, sendo exemplos o respeito ao próximo e o limite da velocidade máxima no interior das localidades. Quem os tiver atrás e se confrontar com a escolha entre esperar e avançar, ante o sinal "laranja” do semáforo, o conselho é que siga, sob o risco de, se não o fizer, ser abalroado por estes pressurosos dos nossos dias.

Uma vez que o veículo em causa tem relação directa com quem reúne elevado estatuto social, o condutor ganha, às vezes, o privilégio de, pelo menos, um batedor da polícia, nunca se sabendo se por direito, à luz dos benefícios de figura com prerrogativas, o que o torna "imune” ao trânsito. Afinal, o tráfego pode também estar a ser-lhe aberto por simples influência de um amigo com poder suficiente para lhe prover um agente e uma moto ou uma sirene.    

Fica até a impressão de que estes nossos colegas da estrada, cujos veículos, de tão descomunais e à velocidade a que vão, passando como furacões ao lado dos humildes e ultra-leves i10, i20, Yaris ou Sportages e até IX35 ou Prados, querem livrar-se de tudo o que se mova e tenham pela frente, a tapar-lhes a visibilidade ou a impedi-los de alcançar a linha do horizonte. Ou que, à compra do "grandalhão”, submeteram-se ao compromisso de só conduzirem em excesso de velocidade. Só assim se compreende que estejam eternamente apressados e impacientes e que transgridam as normas que regulam o trânsito. Ou estarão só a obedecer ao estatuto que lhes precede, de pessoas com prerrogativas que precisam de honrar?

Nestes dias em que muita gente voltou à rua (não necessariamente à actividade profissional), meses depois das restrições impostas pelo Estado de Emergência, as estradas acolhem, cada vez mais, veículos e o tráfego volta, em muitas zonas e troços, a acumular-se, lembrando o cenário anterior ao da deflagração da pandemia (já agora, quem enche a cidade e para onde se dirigem tantas viaturas, se há funcionários em tele-trabalho, pessoas de risco, logo, em casa e mães a cuidar de filhos menores?). Um caos inexplicável, em contexto que devia ser de cuidados a observar como medidas de prevenção.
 
Mas é esta a típica situação de aperto do agrado dos "velozes e furiosos”, que a aproveitam para exibir a vaidade e mostrar um pouco do charme que acreditam ter. Se ao menos saíssem cedo de casa ou tivessem melhor cronometrado o tempo que precisam para a realização das tarefas, não nos colocariam todos em risco, com a condução perigosa por que optam. Assim, também não precisaríamos de testemunhar o privilégio que alguns deles beneficiam no trânsito.

Devemos, pois, estar avisados: atenção aos retrovisores, que eles, os velozes e furiosos, emergem a qualquer momento e de onde menos os esperamos; cuidado com as estridentes buzinadelas e com os invasivos jogos de luzes, sobretudo à noite, porque pode ser um desses carros pretos ou de pouquíssimas outras cores.

Eles são mesmo assim, velozes e furiosos. Se calhar, envaidecidos pela imponência da viatura ou tornados irracionais pelo poder que deles próprios julgam emanar. Gente assim também temos. São os nossos, à nossa medida, à dimensão de país subdesenvolvido que somos, com parte dos problemas por resolver. Os valores ligados ao civismo, à educação ou à moral são exemplos.   

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