Opinião

Ver para além das cortinas de fumo

Há, de facto, quem ainda desconheça (ou por razões de conveniência pretenda ignorar), que a essência da humanidade é toda ela mestiça. Que África não pode ser vista como um todo, como “a single continuum”; ou seja, como um continente racialmente negro. Que a mestiçagem não existe apenas entre europeus e africanos, mas, também, entre os próprios africanos, quer do ponto de vista biológico, como cultural...

03/03/2021  Última atualização 10H32
O filósofo ghanês, Kwame Anthony Appiah, no seu livro «Na casa de meu pai», refere que esta ideia reducionista de África foi desenvolvida, no século XIX, pela cultura ocidental, sendo depois apropriada pelos pan-africanistas, para responderem ao ocidente com um discurso invertido da "raça”. Mas, quer uns, quer outros, esgrimem falsidades sérias demais, para que, nós, académicos, as possamos ignorar, mesmo que o mundo venha abaixo. Temos de ser suficientemente aplicados e rigorosos, para continuarmos atraídos pela enunciação da verdade, sem deixarmos de ser animais políticos o quanto baste, porque há lugares, contextos e circunstâncias, em que a verdade prejudica mais do que ajuda.

Tanto as velhas como as novas identidades ainda se constroem sob a representação grego-romana da tensão "demos” e "ethnos”. Na antiguidade clássica, numa mesma "polis”, como Atenas, havia uma comunidade de cidadãos com direitos políticos e jurídicos, que exercia o poder sobre si própria e sobre todos aqueles que eram considerados inferiores: escravos e metecos (forasteiros estrangeiros que tinham autorização para residir em Atenas, sem, no entanto, terem os mesmos direitos que os atenienses). O "demos” das cidades gregas opunham-se aos "ethnoi” dos estados tribais vizinhos, tal como o "populus” romano se opunha às "gentes” ou "nationes”, que existissem dentro ou fora do império.

Mais tarde, o termo "etnia” (de ethnoi) surge em oposição aos estados ocidentais ditos "civilizados” e o conceito de "etnia” passa a corresponder às exigências do enquadramento administrativo e ideológico da colonização, permitindo assim dividir as populações conquistadas, encerrando-as em demarcações territoriais e culturais homogéneas. Nesta conformidade, a cristalização das etnias remonta a processos de dominação política, económica e ideológica de um grupo em relação a outro.

Hoje, as etnias devem ser entendidas como "significantes flutuantes” e o conceito de etnia tem de ser analisado "como uma categoria de nomeação e de classificação, cuja continuidade depende de uma fronteira e de uma codificação constantemente renovada das diferenças culturais entre grupos vizinhos”. Mas como as culturas não são auto-contidas, quer os indivíduos, quer os grupos sociais, são ou deixam de ser membros de uma determinada etnia de acordo com o espaço e o tempo. Nesta ordem de ideias, algumas etnias, supostamente, tradicionais em África, não passam de criações coloniais, já que o conceito de etnia e de etnização poucas vezes têm sido vistos como conceitos dinâmicos.

Isabelle Taboada-Leonetti, investigadora do campo da psicologia social e da sociologia, considera a existência de um duplo estatuto teórico do conceito de identidade: como "consciência subjectiva e, portanto individual, conceito do campo da Psicologia”; e como "relação com o outro, interacção do campo da Sociologia”. Para Taboada-Leonetti "as estratégias identitárias são o resultado de elaboração individual/colectiva dos actores, variando em função das situações e dos contextos, em consequência dos objectivos dos mesmos”.

Em 1945, depois da II Guerra Mundial, a UNESCO solicitou a biólogos o conceito científico do termo "raça” e estes, concluíram que "a espécie humana tinha uma única origem e que as chamadas "raças” da humanidade eram estatisticamente apenas grupos distinguíveis”. Assim sendo, os aspectos biológicos, contrariamente aos factores de ordem cultural, histórica, e política, deixaram de se constituir em vertentes de identidade. Segundo Ruy Duarte de Carvalho, dever-se-á procurar, hoje, em Angola, um sentido de identidade nacional, que se adapte às configurações sociológicas, que decorram do aparecimento do Estado (enquanto entidade política) e já não as que o terão precedido, mesmo quando se torna possível associar configurações sociológicas aos chamados Estados "pré-coloniais”.

As ideologias são como os mapas, referiu Edgar Morin: ou estão próximas da realidade, quando são receptivas à absorção de novas informações ou, então, criam sistemas imunológicos, mais ou menos eficazes e aproximam-se dos toscos mapas medievais, que representavam o mundo de forma imaginativa e fantasiosa. Quer ontem, quer hoje, há que ver para além das cortinas de fumo. Os estereótipos resultantes de concepções ideológicas assentes no princípio da racialização do discurso estão longe de contribuir para a paz efectiva e para a estabilidade social, uma vez que se situam no âmbito das acções de comportamento social desviado: da mera estigmatização parte-se para a descriminação, mais tarde, para a segregação "de facto” e "de jure” e, em última instância, para conflitos sociais, que deveriam ser evitados. Quem os fomenta, terá, inevitavelmente, de arcar com o peso decorrente da sua ignorância e/ou da sua irresponsabilidade cívica e política.

    * Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Filipe Zau

Jornalista

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