Entrevista

Virgílio Mendes descobre potencial filantrópico do mundo académico

Isaque Lourenço

Jornalista

Uma masterClass sobre “Compliance para Startups” foi realizada quinta-feira, em Luanda, em formato presencial e digital, numa iniciativa do Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC) e um grupo de académicos, uma iniciativa cujos proveitos reverteram para o Centro Neurocirúrgico de Tratamento de Hidrocefalia de Luanda, no Quifica. Nesta entrevista, Virgílio Mendes, especialista em matéria de conformidade legal que actuou como um dos principais entusiastas do projecto, explica as escolhas, desde o tema do evento ao propósito solidário

03/06/2021  Última atualização 09H47
O que se pretende com a MasterClass "Compliance para startups”?
A masterClass tem dois objectivos importantes: queremos alertar as startups sobre a importância de um programa de compliance para ajudar na atracção de investidores para os seus negócios e reduzir a taxa de falência, uma vez que o Compliance é uma ferramenta de gestão de risco muito forte e poderosa. Por outro lado, é um evento filantrópico, pelo qual o palestrante e os parceiros não receberão qualquer contrapartida financeira. Unimo-nos para ajudar, com o que podermos, as crianças do Centro Neurocirúrgico de Tratamento da Hidrocefalia de Luanda, no Quifica. Aliás, as coordenadas bancárias no formulário de inscrição pertencem ao centro e qualquer pessoa pode confirmar num ATM ou no balcão de um banco comercial. Portanto, queremos instruir e apoiar.

Quem foram os participantes e qual o perfil exigido?
O nosso público alvo eram empreendedores, investidores, trabalhadores-estudantes, estudantes, aqueles que já ouviram por parte dos investidores "não me sinto seguro para investir o meu dinheiro no seu negócio” e todas as pessoas que, acima de tudo, sentem e entendem a necessidade de apoiar as crianças do Centro Neurocirúrgico de Tratamento da Hidrocefalia. A realidade que lá se vive é muito dura e os médicos que apoiam o Centro, em regime de total voluntariado, merecem o apoio dos angolanos de bem. Portanto, é um evento inclusivo.

O valor das inscrições era significativo para a causa?
Com a inscrição, era efectuado o pagamento no valor de 1500 kwanzas ou o donativo de um pacote de 10 fraldas (nunca inferior), ou uma lata de leite para lactante entre os zero e os cinco anos, ou 20 máscaras cirúrgicas, ou 20 luvas cirúrgicas, ou cinco frascos de álcool em gel.


Ao associar um acto solidário ao evento, o que terá identificado como necessidade?Sempre gostei de fazer filantropia e uso os meios de que disponho para o fazer, mesmo em comunidades mais carenciadas. Por outra, sendo pai, sinto e entendo a dor de uma família quando encontra uma patologia difícil ou mesmo impossível de lidar. Falámos com o Centro e entendemos as suas dificuldades e a forma como poderíamos ajudar. O nosso país tem muitas carências e foi com base neste espírito que "montamos” o evento. Todos os nossos parceiros sentiram a mesma necessidade de ajudar aquelas crianças e foi tudo muito mais fácil de congregar. O saber não ocupa lugar e, por isso mesmo, decidimos trocar lágrimas por sorrisos.

Trata-se de uma iniciativa isolada ou novos ciclos deverão ainda ocorrer?
Não vamos parar. Não vamos ficar por aqui. Se não tivermos apoios institucionais, vou comprar balões de fardo e distribuir por pessoas carenciadas, mas sempre, e em primeiro lugar, ensinar com apoio de parceiros. Para mim, sempre que as universidades e empresas se juntarem à iniciativa, significa que a mensagem é importante. Não procuro protagonismo individual, mas se tenho acesso a conhecimento e experiência, é minha responsabilidade e dos outros parceiros, partilhar e aplicar. Portanto, não vamos parar!


Há ainda entre nós uma elevada incompreensão sobre a finalidade do Compliance: é desinformação, resistência ou falta de cultura juridico-empresarial?Penso que é uma mistura de tudo. As pessoas, os gestores, os governantes, as ONG e toda a sociedade civil precisam perceber que o Compliance não é uma ferramenta jurídica apenas. Envolve muita coisa e está entre nós, diariamente. Não dizer "bom dia" ao colega de trabalho é não cumprir com um procedimento ético e obrigatório, que é manter e contribuir para o bom ambiente de trabalho. Todos os problemas económicos que hoje enfrentamos derivam da inobservância de regras de Compliance (financeiro, jurídico, corporativo, político, na medicina e outros domínios). Mas, em parte, a culpa também é nossa, profissionais da área, que ficamos escondidos nos escritórios das nossas empresas e não levamos a mensagem para fora. Compliance é vida, por que acima de tudo, Compliance não é estar, é ser. Tem de vir de dentro de nós, para o mundo exterior.

A legislação angolana está adaptada para promover o mercado de Startups?
Ainda não temos o quadro legal mais apetecível para as startups, mas estamos a construir este caminho. Na verdade, muitos negócios permanecem informais, porque a base de formalização dos negócios é das Startups, é a lei das sociedades comerciais, que apresenta requisitos formais muito pesados. Também temos a questão da base tributária, aonde os negócios emergentes têm, ainda, uma incidência fiscal próxima às grandes corporações. Mas é um facto que tem se trabalhado para criar um ambiente legal mais favorável, desde a simplificação dos actos de formalização e registo de negócios. Mas, precisamos de mais e muito rapidamente. O que Angola faz e diz, a nível das startups, já era dito pela Nigéria, África do Sul e Marrocos, por exemplo, há sete ou oito anos. Portanto, o caminho está a ser feito, mas precisamos ser assertivos e céleres.

Ao olhar para este advento das Startups, o que lhe ocorre como preocupação?
Preocupa-me que as Startups e os seus donos não percebam que os negócios emergentes são perfeitos para serem utilizados como veículo de branqueamento de capitais. Olhando para isto, acho estranho que os em-preendedores não se preocupem em proteger os seus negócios e a si mesmos. Nos EUA, por exemplo, nenhuma startup recebe investimento sem ter a patente registada, porque nenhum investidor quer estar associado a um empreendedor que plageia ou rouba projectos alheios (isto é só um exemplo de muitos). Portanto, a minha preocupação principal é a passividade como tratam a questão do Compliance.

PERFIL

 Virgílio Mendes

Formação Académica
Direito e cursos de especialização em Branqueamento de Capitais, Auditoria, Risco e Investimento em Mercados Financeiros

Formação profissional

 Consultor estratégico para matérias de governação corporativa, Compliance, auditoria interna e risco, legal, transformação digital, business e inclusão financeira

Experiência profissional
 Mais de 15 anos no sector Financeiro e Corporativo, tendo dirigido áreas de Controlo, Negócio e Suporte em vários bancos angolanos. É também formador e filantropo

Definição própria
 Pai, marido, chefe de família e apaixonado pelo saber e o conhecimento

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