Reportagem

Vísceras de peixe Corvina viram fonte de rendimento

Uma nova forma de ganhar dinheiro no mercado informal está a ganhar corpo, a cada dia que passa, em várias praias da cidade de Luanda.

12/11/2020  Última atualização 12H35
Joaquim Azevedo, pescador há mais de oito anos, diz que vende diariamente mais de dez quilos © Fotografia por: Eduardo Pedro | Edições Novembro
À semelhança do que acontece com material metálico e de bronze, muito procurado, nos dias de hoje, para serem comercializados em fábricas metalúrgicas, é chegada, agora, a vez de vísceras da Corvina, Garoupa e do Bacalhau. Este órgão do peixe está a ser, segundo os envolvidos no negócio, usado para a feitura de unhas plásticas, botões de roupa, cola e outros produtos. 

Os maiores compradores são cidadãos asiáticos, detentores de casas de manicure e pedicure, espalhadas pela capital.A procura pelas vísceras, vulgarmente apelidadas de "Bucho”, começa cedo, nas praias, com as peixeiras, escamadores e vários adolescentes na linha da frente. Um quilo é vendido a 16 mil kwanzas. Segundo relatos de quem faz o negócio há muito tempo, é possível arrecadar-se, quando se consegue reunir uma boa quantidade de vísceras, mais de 200 mil kwanzas por dia. 

A reportagem do Jornal de Angola deslocou-se em alguns mercados e praias, como a da Mabunda, Ramiros, Cacuaco e Ilha em Luanda, para ver como tudo se processa.No local, o aglomerado de pessoas, movimentando-se de um lado para o outro, à procura de peixe para alimentação, esconde o negócio. Mas não por muito tempo. Basta comprar uma Corvina, Garoupa e/ou Bacalhau e pedir para ser escamado, para, num ápice, ser rodeado por vários jovens. São os homens que recolhem as vísceras, para vender aos asiáticos.

"Isso não é lixo, mas sim bucho, que dá-nos sustento”, disse Loy Costa, pescador na Ilha de Luanda, há mais de dez anos. Garantiu à nossa reportagem que vive deste trabalho há muitos anos e que os estrangeiros, além de comprar o peixe, pagam também pelo bucho, com o quilo a custar, muitas vezes, mais de 16 mil kwanzas. Frederico Augusto, pescador da Praia da Mabunda e vendedor de vísceras aos chineses e turistas, disse à nossa reportagem que não sabe para que servem. "Só secamos e vendemos essa parte do peixe, alguns dizem que é para fazer cola, unhas ou mesmo botões, até hoje não sei a quem acreditar”. Joaquim Azevedo, pescador há mais de oito anos e comerciante de bucho no mercado do peixe no Ramiro, disse que vende diariamente mais de dez quilos do produto em causa e que os chineses são os maiores compradores.

  O que dizem e aconselham os ambientalistas...

Segundo o ambientalista Vladimir Russo, o negócio das vísceras não é considerado crime ambiental, se a obtenção for feita de forma lícita, junto dos pescadores que fazem a limpeza e a preparação do peixe.      "As vísceras e órgãos que seriam jogados fora podem ser usados para outros fins, extraindo o óleo ou vendendo o bucho de peixe como iguaria. A legislação em vigor permite a utilização dos desperdícios do peixe (cabeças, vísceras e partes danificadas)”, disse. Acrescentou ainda que qualquer actividade que seja efectuada acima dos limites de pesca estabelecidos por lei ou de forma insustentável (usando artes de pesca ilegal) pode colocar em perigo a espécie.     O ambientalista defendeu a necessidade de não se acabar com esta prática, se ela for feita nos moldes anteriormente indicados (uso dos resíduos/vísceras). "Esta prática pode ser regulamentada, para que os resíduos sejam recolhidos e usados de forma higiénica e sem atentar à saúde pública”.

          O especialista em ambiente assegurou existir no país legislação que regula o uso dos re-cursos biológicos aquáticos, acrescentando que anualmente são aprovadas medidas de gestão das pescas, onde é apresentado o total admissível de captura, sendo que para o ano de 2020 foram estabelecidas 8.206 toneladas para a corvina (das quais 30% provenientes da pesca artesanal).          Vladimir Russo disse ainda que a pesca do tubarão não é proibida em Angola, com excepção do tubarão azul e do tubarão tigre, que são consideradas espécies em vias de extinção. O ambientalista explicou que a exportação de barbatanas é proibida por lei. 

         Vale recordar que o "bucho ou vísceras” serve para fazer botões, cola e unhas de plástico. É utilizado também na indústria de cosméticos e bebidas. Além disso é uma matéria pri-ma de linha para suturas cirúrgicas, usada especialmente em procedimentos internos, devido ao alto poder de absorção pelo corpo.           Estes produtos são exportados para o estrangeiro com muita facilidade, com destaque para países onde não existe uma legislação que proíbe. No Brasil é proibida a sua exportação, por existir uma lei que não autoriza. 

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