Entrevista

Xisolla e Eunice: amigas de circunstâncias em décadas vividas à sombra da história por detrás do “27 de Maio”

Santos Vilola

Jornalista

A história de Xisolla e de Eunice tem algo comum que, de tão trágico nas vidas pessoais, era tabu entre políticos, famílias, em particular, e entre os angolanos, em geral, há 44 anos.

07/06/2021  Última atualização 05H00
Xisolla e Eunice, órfãs dos comandantes Nito Alves e Saydi Mingas © Fotografia por: kindala Manuel | Edições Novembro
Órfãs de pais assassinados nas mesmas circunstâncias, as jovens viveram durante quatro décadas à sombra da história do pais que ninguém ousava falar ou assumir publicamente.
Xisolla é filha de Saydi Vieira Dias Mingas e Eunice filha de "Nito” Alves Bernardo Baptista. Essa qualidade pessoal de filhas de vítimas dos acontecimentos do "27 de Maio de 1977” colocou as duas jovens numa circunstância em que a empatia, entre ambas, era natural.

Xisolla e Eunice conheceram-se dias antes das cerimónias oficiais de homenagem às vítimas dos conflitos políticos e alicerçaram uma amizade que prometem edificar para sempre.
"A partir do momento em que olhamos uma para outra é que percebemos que fomos tratadas da mesma maneira, independentemente de nos terem dito que estávamos em lados opostos, percebemos que a nossa infância foi a mesma. Além de sermos duas órfãs, somos filhas de Angola”, referiu.

Xisolla Madeira Vieira Dias Mingas é jurista e docente universitária enquanto Eunice Alves Baptista Bernardo é empreendedora. As duas preferiram uma cerimónia privada para receber certificados de homenagem e certidões de óbito dos pais.
A filha de Saydi Mingas contou que o encontro com a filha de Nito Alves foi de grande emoção porque ambas habituaram-se a não pensar em "certas coisas, e certos nomes” tinham um efeito nelas, tudo fruto do que aconteceu aos seus pais. Xisolla indicou que o primo José Lutuima, filho do tio José Mingas, também vítima do "27 de Maio”, sofre o mesmo.

Hoje, com mais de 40 anos, Xisolla lembra que não foi fácil, quando criança, perguntar pelo pai e perceber que essa questão provocava dor e mágoa nos familiares.
"Então, rapidamente, habituei-me a não fazer perguntas sobre o meu pai”, confessou, acrescentando que "o 27 de Maio não esteve encoberto apenas pelas autoridades, todas as casas de famílias angolanas têm uma história deste dia e todas devem preferir esquecer isso, não falar, não rebuscar nem remexer naquilo que causa dor.”
Xisolla recordou ainda que, o pai, militar regressado do exílio, a primeira coisa que fez foi mudar o nome para Saydi Vieira Dias Mingas, diferente daquele que foi registado pelos pais.

A jovem lembrou que há uma vertente na personalidade do pai Saydi Mingas que as pessoas nunca se sentiram muito à vontade para falar. "Falam do amigo, do irmão e do homem de família, mas não falam do intelectual, político e de Saydi Mingas militar”, disse.  Xisolla espera que, quando todo esse processo terminar, os historiadores comecem a escrever sobre o "27 de Maio” e "um dia cheguemos a saber o quê é que aconteceu e porquê aconteceu.”

A jovem, que viveu anos no exterior do país a formar-se, segundo ela, numa altura em que o país não oferecia segurança nem condições,  negou que algum dia tivesse sido pressionada a não participar nas cerimónias de homenagem às vítimas dos conflitos políticos organizadas pelo Estado.  "Não sou política. Sou académica e vivo à parte daquilo que são as conveniências políticas”, referiu.
Xisolla, questionada se, depois destes anos, a reconciliação é possível, afirmou que: "Não sou militar, nunca estive na guerra, logo não preciso de me reconciliar com ninguém, mas gostei do pedido de desculpas e de perdão feito pelo Presidente da República em nome do Estado angolano”, afirmou.

   EUNICE ALVES BERNARDO BAPTISTA
"Temos de perdoar e seguir em frente”

Eunice foi à cerimónia privada de atribuição da certidão de óbito e certificado de homenagem, no Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos, acompanhada da tia Laurinda Gomes Gonga de Almeida, irmã de Nito Alves.
Quando morreu o pai, acusado de ser um dos artífices de uma sublevação interna no MPLA que provocou a purga do 27 de Maio, Eunice tinha apenas três anos. O rosto de Nito Alves é o que resta na memória da jovem de 47 anos que, com mais duas irmãs, suportou o desaparecimento prematuro do pai nas suas vidas.

"Passámos por coisas tristes nas nossas vidas, porque o pai para nós era tudo. Não tenho na memória gestos de carinho, porque tiraramo-me o pai cedo. Só tenho tristeza. É difícil encontrar explicações pelo que passámos”, disse.
Eunice, que disse que ganhou uma amiga nas cerimónias de homenagem às vítimas dos conflitos políticos, afirmou que conheceu a Xisolla num momento "único e indescritível.”

Cristã católica devota, Eunice disse que acredita no perdão. "Temos de perdoar porque até Jesus Cristo perdoou quem lhe fez mal”, admitiu. Sem generalizar, a jovem afirmou que, no seu caso, o passado ficou para trás. "Temos de seguir em frente”, afirmou.
O processo de entrega de corpos das vítimas de conflitos políticos, no quadro dos trabalhos da CIVICOP, começou, formalmente, na quinta-feira, mas havendo a necessidade de assegurar o procedimento de identificação dos restos mortais, decorre ainda a fase de identificação visual e de recolha de amostra para testes de ADN às famílias consanguíneas e às ossadas das vítimas.
Só depois dos testes de ADN e do cruzamento com as ossadas das vítimas é que deve ser entregue o respectivo corpo a cada família, com base na identificação feita.

No ano passado, ao Jornal de Angola, o ministro Francisco Queiroz admitiu que "o 27 de Maio foi uma sucessão de erros políticos históricos lamentáveis.”
Faz 44 anos que aconteceu em Angola uma purga precipitada por acontecimentos políticos e ideológicos do regime do MPLA, que proclamou a Independência do país a 11 de Novembro de 1975.
Morreu muita gente vítima da perseguição política do regime e, também, da acção de insurgentes contra o poder político estabelecido.

O ministro Francisco Queiroz esclareceu que os crimes cometidos nos acontecimentos que ficaram conhecidos como "fraccionismo” foram amnistiados ao longo dos anos de governação.
O Governo leva a cabo um processo de reconciliação das vítimas de conflitos políticos de 11 de Novembro de 1975 a 4 de Abril de 2002, que vai culminar com a inauguração, na zona da Boavista, em Luanda, de um memorial.

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