Entrevista

Entrevista

Yuri da Cunha: “Estou na melhor fase da minha vida e a viver todos os sonhos”

Matadi Makola e Analtino Santos

Foi na véspera do último show “Yuri da Cunha Canta Teta Lando” que o grande intérprete recebeu o Jornal de Angola na residência onde estava hospedado, no Benfica, Luanda. Pela manhã de uma solarenga sexta-feira, dia 30 de Abril, aí por volta das 11h, previa-se uma conversa demorada e Yuri colocou-se à inteira disposição, tendo até mesmo arranjado os quitutes para o mata-bicho e providenciado um caldo para quando atingisse o meio-dia. A música de fundo também foi prontamente garantida. Revelado, em exclusivo ao Jornal de Angola, o acervo pessoal de muitas canções, de diferentes estilos e participações de artistas nacionais e internacionais, que, “no momento certo, chegarão ao público”. Regozijado com a nossa presença, Yuri mostrou-se atento ao que se publica de cultura no Jornal de Angola. Começou a conversa com um desabafo, achando exíguo o espaço da cultura neste diário…

15/05/2021  Última atualização 07H35
© Fotografia por: DR
Acha que a Cultura não é devidamente representada nos conteúdos do Jornal de Angola?

Para mim, naquilo que vejo no Jornal de Angola, fico decepcionado, porque até hoje continua com uma arrumação em que a Cultura ainda fica muito depois da Necrologia. Penso que andei mundo fora e raramente encontro um jornal da dimensão do Jornal de Angola com essa arrumação. Normalmente, a Cultura vem primeiro do que a Necrologia. Claro que sabemos que a Política e a Sociedade sempre tomam a dianteira, o mundo é assim, mas a Cultura tem sempre algum lugar de destaque. É importante que o Jornal de Angola tenha mais Cultura, porque nós somos um país culturalmente muito forte; é quase como uma negação institucional.

 
Mas a Edições Novembro tem no programa o regresso às bancas do Jornal Angolano de Artes e Letras "Cultura”, veículo inteiramente dedicado a tratar da Cultura…

Penso que a possibilidade do regresso do Jornal Cultura já é um passo para a nossa alegria. Porque nós temos muitas coisas a nível da cultura, factos que o Jornal de Angola (grupo Edições Novembro) deveria ser o primeiro a divulgar. As coisas que fazemos e o que nos vai acontecendo a nível do mundo.

 
Fechar o show "Yuri da Cunha Canta Teta Lando” no dia 1 de Maio, Dia Mundial do Trabalhador, levanta várias questões, dado que Teta Lando foi um artista que se bateu muito pela reforma condigna da classe. Foi coincidência?

Não foi coincidência. Contra todos os constrangimentos, a ponto de a Produção pedir para cancelar o show do dia 1 de Maio, devido aos dados da Covid-19 e ao regresso a regras mais apertadas no combate a essa pandemia. Mas fizemo-lo, porque o que nos leva a fazer Teta Lando não é sem sombras de dúvidas aquilo que se pode ganhar financeiramente, mas sim ganhar por toda a mensagem passada através da música e obra de Teta Lando. Porque essa mensagem fica no amor, na reconciliação, no perdão e, sobretudo, na música, arte e cultura de Angola. Teta Lando viveu e morreu amando Angola. Eu falo pelo que vi e oiço da música, família e amigos. E o dia 1 de Maio foi escolhido mesmo pensando nisso. O Teta Lando trabalhou como funcionário dos Serviços de Emprego, ainda no Uíge, e tratava das fazendas do pai. Então, deu a sua vida trabalhando. Para mim, o Dia do Trabalhador consagra também o dia de Teta Lando, que foi sempre um grande trabalhador. Daí essa data ter sido escolhida de propósito e termos recusado cancelar o show. A nível financeiro, não compensa. Para já, não podes ter lá o número de pessoas que quiseres, mas é tão prazenteiro e futurista, porque eu sempre digo que o futuro começa no passado. 

 
Tem contacto com a família de Teta Lando?

Frequentemente. Eu falo quase todos os dias com a família. Ultimamente, nem tanto, porque a mãe Cecília (viúva de Teta Lando) estava incomodada. Eu falo muito agora com a Mamy, que é a filha. No princípio, eu falava muito com o Nany, que é o filho mais velho. Cheguei a falar duas ou três vezes com o Vava, o filho mais novo. Vou falando com a família. Por acaso, ainda há pouco recebi uma mensagem da sobrinha, Letícia, filha de Teta Lágrimas, que eu já conheço há muitos anos. A minha ligação com a família é próxima.

 
Na senda da família, como é que foi passar pela experiência de cantar a música "Cecília”, em que Teta Lando invoca a sua amada, figura importante em toda a obra do músico?

Pois! É a música em que tive muito mais cuidado, porque trata da ligação com a esposa. Eles eram muito chegados. Porque há casais que não o são, praticamente vivem sem se conhecer. Eles não. Fizeram uma vida sempre unidos, de muito respeito. Tiveram uma vida de um casal angolano de verdade, de raiz, que vive a verdade angolana. Então, cantar "Cecília” é como se eu estivesse a cantar para todas as mulheres angolanas no mesmo contexto musical e a mãe Cecília é um doce de pessoa. Desde que começamos a conversar, nunca foi do tipo de pessoa de lamentar a morte do marido ou o pouco do que o país ofereceu a ele quando deu tudo de si ao país. Nós, normalmente, é que ficamos a lamentar e a falar de coisas. Mas ela não. A conversa da mãe Cecília é de que temos de acreditar, fazer e lutar, porque é possível.

 
E o que ela diz sobre o marido?

Diz que o marido dela sempre sonhou que fosse possível e entende que todos os momentos por que passa seja resultado das transformações das sociedades. Ela espera por gente que olha realmente para Angola como uma nação verdadeira e que possa dar continuidade àquilo que o seu marido fez. Essa sempre foi a conversa dela. Eu fiquei muito admirado com essa atitude. Porque quem sofre como eles sofreram, todos nós sabemos da história, e porque o Teta Lando viu, aos nove anos de idade, o pai a ser morto à sua frente. Morto pelo colonialista de forma cruel. Mas Teta Lando conseguiu ultrapassar este momento com amor. Para já, pela família que ele encontrou, que acabou lhe dando bases para perdoar, e perdoou. E o que é que ele fez com a música dele? Em vez de alimentar ódios e ataques, ele fez um recuo, criou a sua estratégia de amor, que hoje faz com que eu esteja aqui a cantar Teta Lando como cantamos, com todo amor e verdade. Quando ensaiámos essas canções todos os dias, chega um momento em que, de tão envolvido no tema, parece que se vive a força daqueles anos todos. E vivendo isso para artistas que interpretam é uma carga bruta, muito bruta para as emoções. Porque nós aqui temos muitas coisas por fazer. Aliás, eu tive uma crise de choros no segundo show.

 
Como sentiu cantar "Angolano Segue em Frente” e "14 Chuvas”? Na verdade, o "Angolano Segue em Frente” cantando em 70, em 2006, acabou por ser quase um hino da nossa selecção pela ida ao Mundial, e o "14 chuvas” que marca o exílio…

Em 2008, eu abri o meu show no Coliseu, em Portugal, com a canção "Angolano Segue em Frente”. Enquanto povo, nós somos generosos e modestos, nós não somos o que nos vamos tornando, consequência daquilo que digerimos um pouco de todo o mundo. Infelizmente, sempre escolhemos as coisas sem saber como é que elas foram feitas no passado, por aqueles que já as fizeram, e temos sempre alguns erros. Em parte, é normal, porque nós somos uma sociedade independente com apenas 45 anos. As outras sociedades também tiveram as suas falhas. Mas o "Angolano Segue em Frente” é para continuarmos na honestidade, menos ambição, equilíbrio social, irmandade, porque ninguém tem que dizer a qualidade dos nossos sentimentos, porque é a nossa forma de sentir, como o português tem a dele. Nós temos que transmitir os nossos sentimentos. Por isso o "Angolano Segue em Frente” é realmente para nos reposicionarmos naquilo que um dia fomos, porque estou certo que a liberdade só existiu porque os angolanos a conquistaram.

 
Cantar "seguir em frente” parece bastante actual para o fortalecimento anímico de hoje, com uma população acentuadamente juvenil. Yuri, como diria hoje, em 2021, para o angolano seguir em frente, diante de vários problemas, como a corrupção que atrasou o país, contra a qual o Presidente João Lourenço faz uma cruzada?

Falando do nosso novo Presidente, a gente quer que tudo corra bem para ele (Presidente João Lourenço), porque se correr bem para ele, tem de correr bem para nós, por aquilo que nos é passado. Tenta Lando cantou: "madrugada chegou e com ela um novo dia e aqueles que nos guiam dizem que agora tudo mudou”. Essa mudança é que a gente espera. Nós estamos aqui para poder apoiar as coisas significativas que o Presidente João Lourenço vai fazendo, enquanto angolanos. Nós não concordamos com as coisas erradas. A gente está à espera, no meu caso, para ver se realmente acontece. Claro que mudanças já aconteceram, mas ainda não se sente no seio da população. Mas toda a mudança traz alguma coisa nova, para o bem ou para o mal. Nem tem sido fácil e os apertos existem, mas eu continuo a ter fé e a esperança, porque sem esperança é melhor desistir. Tenho esperança de que a gente vai conseguir, erros todos cometemos, até na nossa administração caseira. Esperamos que possamos corrigir os erros e avançar como um só povo. É importante olharmos para o Presidente João Lourenço como o líder, o chefe da nossa casa, tê-lo como um pai. Mas cada um de nós tem a sua responsabilidade de olhar para Angola como um todo. Claro que os interesses pessoais existem, mas imagine se cada um quiser impor a sua vontade? Nunca chegaremos a lado nenhum.  Temos de nos reunir, entre nós, no funge de domingo, para podermos realmente encontrar um posicionamento comum. Mas temos que falar, não pode haver autoritarismo. Até porque hoje vivemos em democracia, propícia para conversar, e mesmo que alguém esteja em cima, mas a maioria tem de ter algum equilíbrio.
 
Teta Lando morreu sem ter saboreado a consagração da sua obra. Recentemente, foi laureado com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, maior destinação da cultura angolana. Foi tardio?

Muito tarde! Nós temos a mania de homenagear após a morte. Se eu tivesse condições, tanto financeiras como físicas, eu faria. Mas é difícil, principalmente, numa época como essa, em que os apoios escasseiam, quase não existem, e os que funcionam vêm já com dificuldades. É muito difícil, num país onde cada vez mais somos materialistas, onde pensamos mais no futuro próximo, no pão para as crianças. Eu realmente poderia estar a fazer alguma coisa para mim. Mas eu percebi que fazer para mim é fazer por nós. A sabedoria dita que se eu não arranjar os buracos da estrada onde passamos, toda a minha caminhada é vã. Com todas as dificuldades, mesmo que seja só uma mensagem, quero fazê-lo. Porque se eu não tenho condição financeira, posso apenas dar o meu amor, tal como Teta Lando fez, postulou uma verdade que não cria atritos. Cada vez que eu entendo Teta Lando, eu quero ser cada vez mais justo naquilo que somos. Angola é importante com os angolanos. Infelizmente, pegamos o lado mau de outras características, como a intriga, as fofocas, o pessimismo. E muitas vezes falamos dos outros sem saber no fundo a base que os leva e os motiva para isso ou aquilo. É o momento de olharmos para nós como peças fundamentais para fazermos crescer o nosso país.

 
Ainda com Teta Lando, digamos que o refrão "Angolano ama o teu irmão” é realmente muito forte. Voltou a colocar Marito, depois de quase duas décadas de inactividade, apelou a Joãozinho Morgado e a plateia olhou e valorizou. Que recado deixa para os  artistas que ainda vivem praticamente na indigência?

As pessoas fazem muitos elogios ao Yuri da Cunha. Mas eu acredito que os kotas Marito, Massano, Teta Lando também receberam muitos elogios. Falando propriamente do kota Marito, não sei se ele teve problemas com alguém, se discutiu com quem não devia… Porque não é normal um ícone dessa dimensão e até hoje ainda a passar pelo que passa. Falamos de falta de medicamento e de tudo o resto. Eu não posso estar contente, dado que estou numa condição financeira um pouco melhor. Mas lá mais pra frente, quando eu tiver menos força e capacidade, será igual para mim. Não me sinto contente por estar agora numa posição onde eles já estiveram antes e poder falar e fazer alguma coisa para que eles se sintam bem. Se eu não fizer agora, quando eu estiver no lugar deles, o meu mal será duas vezes maior. Por isso, pergunto-me para quê me elogiarem tanto, se as pessoas que me fizeram não estão bem? Assim, acabo não sendo nada também. Devemos honrar os nossos pais, e não se trata apenas de pais biológicos, mas de pessoas que foram exemplos e assumiram responsabilidades por nós. Quando vejo um kota Marito do jeito que está, e não sei por que razão, passadas mais de duas décadas sem tocar.

 
Sabemos que chegou a ir visitá-lo recentemente...

No meio de vários artistas jovens como eu, o kota Marito pediu às filhas para me contactarem. Eu prontamente respondi ao convite e fui vê-lo em casa. A sensação que eu tive, de forte sentimento, quando ele pede para irem buscar o violão, tanto que eu ainda perguntei para quê e a mulher dele começou a rir. Disse-me que o marido tocaria, porque andou dias a ensaiar para tocar para mim. Foi incrível! Não sei porquê eu. Sinto-me muito honrado e agradecido, mas ao mesmo tempo com um medo enorme de falhar em alguma coisa. O que aconteceu naquela sala foi muito mais do que tocar um violão; foi uma mensagem muito forte. Para mim é, além de tudo, uma mensagem de socorro, de alguém que me quis mostrar o que ainda pode fazer, para que eu pudesse trabalhar em prol daquilo que não foi feito.

 
E como foi o final desse encontro?

Infelizmente, não posso fazer muito mais, senão ir atrás de pessoas que realmente possam ajudar. Porque as pessoas podem ajudar, nós, sociedade, podemos ajudar o kota Marito. E eu até não chamaria ajudar, mas sim compensar por tudo o que não fizemos por ele, quando ele deu tudo por nós. Foram pessoas que sofreram represálias desde o tempo colonial, porque não foram apenas as armas que lutaram pela liberdade. É importante que se valorizem essas pessoas, porque todos nós, angolanos, sem excepção, damos muita importância a coisas fúteis. E vejo, por exemplo, quando um kota Bonga canta aquela música "Chica Feia de Angola”, que reclama porque à mulher foi retirado aquele peso que ela tinha, porque ela sempre teve peso. Perdeu grande parte da sua valorização. Deu lugar a uma geração nova que não sabe os fundamentos e tem estado a viver um pouco aquilo que são as novas sociedades. São assuntos que merecem o nosso reparo e pararmos para falar no funje de domingo e irmão ama o teu irmão passa por isso. Primeiro, porque é preciso respeitar pelo simples facto de existir e, depois, passa por aquilo que ele pode fazer por todos nós. Para já, um dos meus maiores exercícios é não me sentir superior ao outro.

 
Falando em vaidade e superioridade, vimos, na parte final de um dos espectáculos, vários artistas de gerações diferentes irem ao palco, sendo que muitos deles, isto no passado, trocaram alguma animosidade fruto de intrigas que alimentaram a imprensa. E isso é um problema da classe artística, questões de ego…?

Egos sempre vão existir e, principalmente, quando somos jovens. Dois irmãos, filhos do mesmo pai e mãe, também brigam. Se você briga com quem vive na mesma casa e partilha da mesma educação, pode ocorrer brigar com quem não partilha essa relação. É normal que haja brigas, mas a gente é que depois pega no sentido das coisas e inverte, achando que deve ser inimigo para sempre. Não! Para mim, nunca fomos inimigos, somos irmãos que tiveram divergências. Claro que já houve chatices e não vale a pena hoje tentarmos mostrar uma coisa que não é. Mas é preciso sentar e alguém tem de parar para pensar que podemos brigar em algum momento, porque as pessoas são diferentes. O que não vale a pena é pensar que, porque aquele teu irmão que pensa e têm ideias diferentes, é teu inimigo, porque é assim mesmo que ele se torna inimigo. Então, foi importante também tê-los ali, porque a maior parte deles foi dar-me uma força; pagaram o bilhete para irem assistir ao show. E porquê não chamá-los ao palco, para poder partilhar desse momento que é nosso, que o Teta Lando fez para nós e não para mim? Teta Lando cantou "pois não quero que os meus vindouros tenham o nosso destino como herança”, isso para dizer que, se os nossos pais brigaram até nunca mais se entenderam, nós não seguiremos esse caminho. Porque os exemplos para o agora devem ser dados. É preciso estarmos juntos e nos entendermos na diferença. Essa diferença que, no palco, Matias Damásio faz bem a parte dele, Puto Português idem e assim seguimos. Porque ninguém faz igual, somos diferentes, e daí dizer que o que um dia o Sebem disse é importante: "ninguém é melhor que ninguém”. Cada um deve dar aquilo que pode, intelectual ou não, para fazer a diferença e podermos viver. Irmão ama o teu irmão tem  a ver com essa postura do perdão, porque nós somos uma sociedade que viveu muitos anos de costas viradas, baseada em questões porque o sicrano é do sul e o beltrano é do norte. 

 
Yuri, está mais seguro, coeso e livre. Do quanto sonhou ter, em que fase da sua vida está?

Estou a viver todos os sonhos que eu tive quando mais novo, mas é claro que vão surgindo outros sonhos, porque a vida é isso, é continuar a sonhar. Hoje, por exemplo, canto ao lado de um Paulo Flores, que é um ícone respeitado dentro e fora do país. Mas não é só por isso, é pelo facto de ele ser uma pessoa com quem eu diria que todo angolano deveria estar por perto. E eu tenho esse privilégio. Hoje estou cada vez mais perto do kota Bonga, cada vez mais como um filho…

 
Por falar em "filho”, hoje vemos um Yuri mais posicionado musical e socialmente. Podemos tomar como resultado desse "apadrinhamento” pelo kota Bonga?

Com certeza. Isso tudo é realmente consequência dessa aproximação. Porque lembro-me de uma vez, só para dar exemplo, eu ter dito na inocência algo pejorativo sobre o kimbundu. O kota Bonga deu-me uma olhada pesada, daquelas que te despem diante de todo o mundo. Estávamos só os dois e ele disse-me: ‘achas que o de kimbundu está mal? É isso que nos meteram na cabeça?’. Então eu pude perceber que às vezes somos levados pela nossa inocência para nos prejudicarmos a nós mesmos.

 
O Yuri também acaba por ser pai de uma geração de músicos que hoje abraçou o Semba e que assume que lhe segue as pegadas…

Digo sempre algo que aconteceu há alguns anos, entre mim e o nosso irmão Edy (Tussa), ao tempo em que era um rapper, e durante anos eu lhe insistia para entrar no Semba e outros géneros nossos, de raiz. Porque, enquanto jovem, sentia-me muito sozinho e era preciso que os outros fizessem para que realmente fosse moda. Então, aquilo que eu sabia e podia passava ao Edy Tussa e ele rapidamente digeriu, tanto que foi fazendo as coisas dentro da nossa música com todo o cuidado possível. E hoje está aí, vivendo essa paixão pela nossa música de raiz. Penso que o importante é conhecer, para poder sentir, porque, se nós não divulgarmos, não podemos lamentar que não toca e que as crianças não ouçam. Por exemplo, as crianças ouvem o kuduro porque é feito em massa. Eles pegam num beat qualquer e colocam um instrumental e assim podem fazer vinte kuduros num só dia. Eles, sim, estão a promover a sua cena e fazem muito bem. Já nós temos mais despesas para fazer um Semba bom, mas chega a ser tão prazenteiro como o kuduro. Realmente, não são muitos que seguem por esse caminho e àqueles que assim o fazem eu tiro o chapéu, sempre na vontade de preservar a nossa matriz, e o Edy tem feito bem isso.

 
Com Paulo Flores, tem duas músicas que definem gerações, "Kalumba” e "Njila Ya Dikanga”…

"Kaulumba” é letra e música de David Zé, mestre, professor, poeta do Kimbundu. Sempre ouvi David Zé, desde muito novo, tal como Urbano de Castro e Artur Nunes. Foram os meus primeiros contactos com a música, porque, em casa, o meu pai ouvia muito. Durante a juventude, já não queríamos ouvir aquelas músicas, porque ouvíamos muito em casa. Mas hoje, agradeço ao meu pai por ter um punho firme quanto a isso. Essas músicas fazem parte do nosso DNA, da nossa forma de estar. Eu tenho que viver, sentir, para poder interpretar, não consigo fazê-lo só porque as pessoas acham que eu consigo cantar uma certa música.
 

E como veio o "É tudo amor” e "Eu”, que eram zouk puro, até com a influência do francês?

Naquele período era moda. Todo mundo queria fazer um zouk, estava bonito. Mas eu ainda não tinha a percepção que tenho hoje. Eu tinha 18 anos, quando gravei o meu primeiro álbum. Era uma criança. Aos 18 anos, pensamos que já somos maiores de idade. Só lá mais para frente é que vemos que, afinal, continuávamos a ser criança. Eu estava à procura de alguma coisa e naquela altura era mais fácil singrar com esse tipo de música.

 
Mas parece que a música de Angola é sortuda, com artistas com tons graves, de quase roquidão, como Bonga e Paulo Flores…

A nossa música é como nós somos e depois temos o tal choro. Porque a nossa cultura diz isso. Vimos agora há pouco, no óbito do tio Inó (Gonçalves), que considero uma das nossas maiores manifestações culturais. Com os meus 40 anos, não me lembro de ter ido a um óbito onde as pessoas se juntam para tocar e dançar, assim como era no antigamente, as coisas que o falecido gostava. Por isso é que Artur Nunes cantou "Kizua ki ngi fua”…("o dia em que eu morrer”), a definir que queria os seus amigos a cantar e a dançar, não queria tristeza, porque partiria na graça de Deus. E penso que foi assim que o tio Inó partiu. Teve de acontecer porque a morte é a única certeza. Para mim, ele deixou-nos uma paz, porque ele nunca abandonou a ngoma, sempre fiel à matriz do Semba. Estar ali no óbito, apesar de toda a tristeza, sair dali feliz, não é uma coisa fácil, tem de ser um grande homem a nos proporcionar isso. Infelizmente, não se valorizou a sua obra em vida. Eu esperava que a imprensa pudesse fazer mais, porque nós podemos fazer, mas quem espalha são vocês. Durante muito tempo, andámos aqui à luta, jornalistas e artistas, mas hoje sinto-me muito mais respeitado e acarinhado pela classe jornalística e é isso que se pretende. E pago imposto neste país, que é meu, e assim tem de ser, assim ganhamos mais, se eu vender, é bom que se divulguem as minhas coisas para eu poder vender e assim contribuir. Durante muito tempo, a imprensa, radialistas e DJ, só passavam música estrangeira. Quem perde somos nós, porque quando um artista tem trabalho, directo ou indirecto, o jornalista ganha, não apenas com as notícias. Mas o que acontece é que a pessoa trabalha, abre o Jornal de Angola e nada.

 
Vocês sentem a falta de uma imprensa especializada em cultura?

Falando por mim, eu sinto. Sinto porque é a minha área e vejo uma pobreza enorme. Uma coisa é dois ou três jornalistas interessados, laboral e pessoalmente, outra é vermos muito pouco. Mas também acredito que, se calhar, deve haver muitos entraves ali dentro, que fazem desistir nos grandes jornalistas interessados na cultura. Porque as pessoas não entenderam ainda, dali que aconteça isso. Precisamos de estar unidos na nossa matriz, e isso exige a operação de todos. Por exemplo, hoje em dia as crianças já não ouvem mais música infantil e ninguém faz nada.

 
Como analisa a questão dos direitos autorais em Angola, na senda do Dia do Trabalhador, visto que já viu o seu nome em meio a uma polémica a propósito?

De certa forma, somos todos vítimas e tem de ser resolvido com instituições sérias. Por exemplo, recebemos uma chamada da SADIA a pedir uma lista das músicas do Teta Lando que eu deveria cantar. Eu respondi que só enviaria, se a SADIA enviasse um documento a comprovar que é gestora dos "direitos de autor” do Teta Lando. Eu acho que soa mal, e até é um crime, porque quem responde pelos direitos do Teta Lando é a Ceasseme, em França. Se formos ver, tanto as rádios públicas como privadas têm uma grande dívida para com os artistas.

 
Mas temos operacionais a SADIA e a UNAC…

Sim, com pessoas. Para já, eu entro para a UNAC porque o Teta Lando candidata-se para a sua presidência. Achei interessante, por ser uma pessoa vertical. Mesmo sabendo que não se ganhava nada, eu queria estar. Quando Teta Lando fica doente e vai para França, eu já não queria muito estar lá, porque os fundamentos já eram outros. Não me preocupei sequer em renovar e fiquei no meu canto, para ver de longe o que iria acontecer. Quando gravo "Yuri da Cunha Canta Artur Nunes”, fi-lo na emoção de dar a conhecer a outros jovens, porque eu, quando mais novo, confundia David Zé com Urbano de Castro. Para mim, era tudo David Zé. Escolhi Artur Nunes, porque sou muito sentimentalista e a música dele foi feita com muita alma. Fui à RNA perguntar com quem eu poderia falar, para gravar Artur Nunes, e, lá, falei com a irmã, tia Santa. Como tinha recebido um patrocínio, acabei por adiantar um valor à irmã, que eu poderia retirar na metade que lhe cabia com a venda dos discos. Nesse entretanto, aparece Lopito Feijóo, que me queria na SADIA…

 
E por quê recusou entrar na SADIA?

Eu não entro na SADIA devido a um episódio, quando esta instituição decide dar 200 dólares aos artistas, como compensação pelos direitos autorais. Eu fui para lá e reparei que recebi 200 dólares e o Nagrelha também um valor igual, quando a música dele tocava muito mais do que a minha. Eu manifestei logo que isso era injusto. Não podia ser, porque o Nagrelha tocava mais do que eu, devia receber mais. Decidi que era melhor os meus 200 serem dados ao Nagrelha. O problema começa aí. Para já, não queriam tratar o Nagrelha como deveria ser. Aliás, este preconceito já vem desde que o grupo se forma, visto que eu tive muitos problemas ao inseri-los no alinhamento do Super Rock, Super Bock, que aconteceu no Estádio da Cidadela. As pessoas querem sempre olhá-lo como "bandido”. Mas porquê?!

 
Tem alguma aproximação ao Nagrelha? Pode falar um pouco dos vínculos que vos unem?

Ele tem arte, se tem arte é porque tem ofício, até porque eu também nunca vi a parte dele de bandido. Não posso dizer que já vi. Se lhe fecharmos a arte, vamos ter mesmo um bandido. Lá fomos e o show correu tudo bem. O Nagrelha chama-me "papá”, porque o casal (Nagrelha e Weza) escolheu-me para padrinho do casamento. Fui conhecendo uma pessoa adorável, uma pessoa com uma educação muito própria, característica. Ele nasceu e cresceu no Sambizanga, não vai ser como eu, do Rocha Pinto, ou alguém do Cassenda. Hoje vemos o Nagrelha e não nos passa pela cabeça que ele é um exemplo para a sociedade angolana. Se tivéssemos num país onde se valoriza quem vence, o Nagrelha serviria de exemplo. Ele é um pai de família, que supera muitos desses que andam aí de fato e gravata e não chegam a ter essa capacidade de dar amor aos filhos.

 
Está sempre a enaltecer o seu Rocha Pinto. Faz isso por gratidão?

Eu sinto as coisas, basta isso. Eu sou do bairro, por mais que tentem, eu nunca vou ser aquilo que quiserem. Eu sou do bairro, é a minha essência. Eu fui conhecer os outros lugares muito tarde. Convivi com pessoas da elite quando já ia nos meus 24 anos.

 
O dueto com músicos africanos, um congolês e um nigeriano, teve o seu público. No fundo, é um Yuri que procura estar mais presente na música africana?

O que deveria ser era o Yuri ser africano sempre. Mas a vida, aqui em Angola, principalmente, foi nos ensinando outras coisas. Mas isso tem a ver com tudo, desde a escravatura, colonialismo e as coisas que nos meteram na cabeça. Fomos ensinados a viver de uma forma e tudo o que antes era certo hoje vemos que não devia acontecer. O processo de ser africano aqui é de estranhar. Nós estranhamos quando alguém é africano, infelizmente, temos um pensamento quase europeu. Só quando nos convém é que somos africanos, mas a nossa maneira de estar todos os dias é europeia.

 
A sua reforma está garantida?

Eu sou angolano. Antes de eu responder, vou perguntar: como é esta questão em quase todos os angolanos? Estamos todos iguais. Agora, é normal que eu tenha ganhado mais, mas eu também gasto muito mais. Porque fazer um show como este, do Teta Lando, não é possível sem dinheiro e com rigor levado ao pormenor. Por exemplo, é preciso trazer uns bons instrumentistas de sopro, um bom operador de som e, depois, congregar um Miqueias, Joãozinho Morgado, Mayó, e fazer com alguma qualidade. Assim, não se consegue guardar dinheiro, que já é pouco. Há vezes em que, de repente, tens de assumir o problema da luz que foi e tens de comprar um gerador. Já mexes num dinheiro que servia para a música. De repente, tens de comprar todos os dias repelentes para afugentar moscas e mosquitos. Depois, como é o meu caso, a água na minha casa não corre e tenho de comprar de cisternas. Eu vivo aqui e vou tentar ao máximo viver aqui. Eu podia ter nacionalidade portuguesa, não adquirida, através de parentes, mas também pelo facto de ter passado um bom tempo em Portugal. Mas nunca tive. Hoje, com essas dificuldades do presente, é normal pensar em ter. Para mim, enquanto artista, ajuda na facilidade de viagem e fazer coisas, e bem ou mal, a sociedade portuguesa defende os portugueses.


O que acha que devemos fazer?

O que nós temos que fazer, enquanto sociedade, é nos defender, através de leis que protejam os angolanos. Nós funcionamos por "cunha”, por via de um conhecimento, e já está "fofu”. Mas não pode ser assim; devemos viver com o que nos é de direito. Talvez assim consigamos ter o nosso pé-de-meia. Nós vivemos para comer no dia seguinte e digo isso porque estou a falar de uma maioria. E eu não posso achar que estou bem, pelo facto de ainda ter alguns trocos. Tem de ser para todos, e assim podermos todos pagar os impostos e alcançar o que todos sonhamos. Se aqueles que nos guiam dizem que agora tudo mudou, a gente espera para ver se realmente conseguimos alcançar. E sobre isso, gosto muito de ouvir o Dom Caetano, quando canta "o meu chão dá tudo, o meu chão tem tudo, o meu povo é capaz, porque ele é camponês”. Muitos empresários, políticos e artistas, a maior parte veio de baixo. Eu acredito que o poema de Agostinho Neto "Havemos de voltar” não era para ficar somente aqui na cidade, mas sim voltar ao mato e fazer daquilo um grande pólo agrícola. Porque o pessoal do campo trabalha todos os dias, é um hábito. O ideal era conseguirmos, nós aqui, na cidade, eu, tu ele e outro, criar melhores soluções.


  Yuri da cunha fala sobre a acusação de uso de drogas

  "Emagreci porque queria dar uma imagem diferente”

Recentemente passou por uma polémica relacionada ao seu estado de saúde. O que realmente aconteceu?

Sim! Disseram que eu estive mal por causa das drogas e a gente tem de falar as coisas pelos seus nomes, para começarmos a desmistificar algumas coisas. Porque nós, aqui, temos problemas de percepção e as coisas ditas pelos nomes não permitem outras leituras. Essa foi uma situação muito chata para mim. Eu realmente emagreci, porque queria dar uma imagem diferente, tanto é que até cortei o cabelo. Depois, pensei no que me fosse caracterizar e me veio à cabeça a imagem dos nossos antepassados hereros, nyanekas e muitos outros povos que usavam brincos, aqueles grandes, que ocupam um grande furo na orelha. Eu quis isso, quis ser africano. Claro que nessa coisa de fazer dieta, e eu não estava habituado, foi a minha primeira vez, deu-me um aspecto diferente. As pessoas não estavam habituadas a ver-me diferente. Eu não era  gordo. O bem estar, para nós angolanos, é quando estamos numa situação financeira melhor e isso aconteceu comigo, comia sem regras, viagens e mais, que fizeram com que eu engordasse.

 
Sente-se bem agora?

Eu sou uma pessoa que tem de ter os quilos que tenho agora. Tenho pesado todos dia e, neste momento, estou a pesar 81 quilos. Acho até que tenho peso a mais, porque eu tenho de pesar 78 quilos, para a altura que tenho. Eu vou fazendo com a minha alimentação naturalmente.Já tirei a carne e uma série de produtos para não engodar. Mas gosto, por exemplo, de apreciar um caldo quase todos os dias, a nossa culinária é rica, com muambas e outros molhos. 

 
Mas reconhece que chegou a emagrecer bastante?

Realmente. Sai de 84 para 77 quilos. Essa transformação aconteceu quando eu estava em Portugal, na quarentena, período em que a maioria das pessoa engordou, mas eu emagreci, porque quis. Infelizmente, exagerei um pouco e passei. Eu estava contente, sentia-me leve e tranquilo. Como as pessoas não me viram, claro que tomaram um susto. As más bocas, e de pessoas que eu conheço, vieram a público dizer que eram as drogas. Isso entristeceu-me muito. A gente não vai citar nome, mas eles sabem quem são. São pessoas que deveriam estar a olhar para nós como irmãos. Aquilo pareceu tipo "precisamos ajudar o Yuri da Cunha”. Então, se preciso de ajuda, não peço primeiro à minha família? Se você quer, realmente, ajudar-me, liga para mim e conversa comigo para poder saber o que se passa. Primeiramente, não liguei, porque já venho a passar por isso há muitos anos. Até já fui acusado de ser traficante de droga. Já estava habituado a lidar com isso. Mas os meus filhos já estão grandes e, passada a mentira como foi passada, aquilo fez-me muita confusão. Foi tudo engendrado por pessoas de má fé, para criar realmente aquilo que chamamos "deixar cair”.

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