Reportagem

Jovens e idosos dão forma a borrachas para resolver problemas de apoios de viaturas

A nova arte que tem o seu principal ponto de interacção em uma das principais vias que liga o mercado informal do Mutundo ao centro da cidade do Lubango, à beira da ponte sobre o rio Nambambe, incide no corte de borrachas de pneus para o fabrico de apoios (sinoblocos), para a protecção dos terminais de viaturas, triângulos, amortecedores, entre outros.

29/10/2020  Última atualização 17H30
Para além das oportunidades de emprego que está a gerar, João Chimala, é de opinião que o ofício de borracheiro contribui para uma maior dignificação dos jovens e mesmo adultos que, num exercício de superação, muitos deixaram as profissões que exerciam, de longe inferiores a que exercem actualmente, como de sapateiro, por exemplo, para abraçar esta a novel profissão.

 "Temos aqui pessoas que antigamente eram sapateiros, hoje estão transformados grandes borracheiros”, frisou.
João Baptista, 59 anos, é uma destas pessoas. Sapateiro desde 1983, este cidadão é hoje um dos grandes formadores dos borracheiros. Formou até agora mais de umas dezenas de jovens que exercem actualmente esta profissão.

Homem de poucas palavras, João Baptista prefere falar sobre as obras que realizou, mas concretamente na área da formação de jovens da nova geração, que representa actualmente o seu principal foco. "Desde que me meti neste ofício, já formei mais de 10 jovens que se encontram a trabalhar em diversas zonas da cidade”, conta João Baptista.

Pai de 12 filhos, João Baptista justificou a mudança da profissão de sapateiro para o fabrico de sinablocos devido a baixa abrupta que se registou, a determinada altura, na demanda pelos serviços de sapataria.
Lembra que mudou de profissão nos anos 90, quando o mercado da Huila começou a ser "inundado” por vendedores de calçados de fardos. O mestre dos mestres, como é também tratado pelos seus pupilos, lamenta a falta de matéria-prima como pneus de tractores e de outros instrumentos utilizados para fabricar os apoios de viaturas.

Tido como um dos seus principais discípulos, João Chimala, com quem faz a dupla nas imediações da ponte do Nambambe, considera-se um sapateiro focado na solução de problemas de viaturas ligeiras e pesadas.
O mestre de 53 anos, afirma que é possível sobreviver da profissão mas lamenta a falta de interesse dos jovens em aprender o ofício. "Os jovens querem aprender, mas têm vergonha de ficar a beira da estrada a cortar borracha, sobre olhar dos transeuntes, chegando muitas vezes a afirmar que isso não é trabalho para eles”, sustentou.

"Infelizmente, eles não percebem que esse é um trabalho igual a qualquer um, onde todos podem conseguir alguns trocados para cobrir as despesas diárias do lar”, lamenta. A dupla integrada pelo mestre João Baptista e João Chimala orgulham-se por conseguirem com o trabalho que realizam, ajudar a solucionar os problemas de várias viaturas pertencentes a instituições públicas e privadas. Segundo eles, estão preparados para fabricar e montar sinablocos de tesouras, geme de força, barra estabilizadora, amortecedores e outros acessórios, para viaturas ligeiras e pesadas.
Para além da zona do Nambambe, existem em várias zonas da cidade do Lubango outro mestre de sinablocos.
Mas os mais procurados, são os do Nambambe e do mercado do João de Almeida, devido a consistência dos serviços que prestam.

 Atracção de clientes

A localização dos seus serviços à beira de uma das estradas mais movimentadas do Lubango é, de acordo com a nossa fonte, a estratégica utilizada para chamar a atenção dos clientes.
"Trabalhamos à beira da estrada para que os proprietários das viaturas conheçam o nosso trabalho e tenham um conhecimento perfeito em relação ao que fazemos aqui. Muitos já nos conhecem. Somos nós que fabricamos os apoios de borracha para grande parte das viaturas no Lubango”, afirmou João Chimala acrescentando que, devido a eficiência dos trabalhos que realizam, "muitos automobilistas preferem os sinoblocos de fabrico artesanal, do que os que são comercializados pelas representantes”.

Os Borracheiros

No primeiro contacto com a  nossa equipa de reportagem, encontramos  João Chimala, absorvido pelos seus afazeres, na zona do Nambambe, numa altura em que ia a retirar, com a mão direita, na pequena bancada a sua frente, uma faca afiada. Rapidamente, molha a faca num frasco com água mineral e, apoiado sobre as pernas, rasga um pedaço de borracha, desfazendo em dois o pneu que tinha às mãos, lançando em seguida, um olhar de orgulho para o gume da faca velha, desgastada pelos cortes de pneus.

Um olhar de esguelha, foi em direcção as peças espalhadas no chão e para o local onde tinha as ferramentas de trabalho. A esferográfica azul foi a primeira coisa que encontrou. Precisava de assinalar a dimensão do sinobloco, a partir de uma amostra que o mecânico trouxe. Utilizando a esferográfica, em poucos minutos, João Chimala conseguiu o que queria, com uma perícia inquestionável.

É assim o dia-a-dia de pessoas que como João Chimala, ganham a vida a fabricar apoios (sinabloco), para o fabrico terminais, triangulos e mesmo amortecedores e uma infinidade de outros sobressalentes para viaturas.
A qualidade das sinoblocos artesanais é confirmada por alguns mecânicos locais como, por exemplo, os mestres Eddy e Manuel, que recomendam estes serviços aos seus clientes. "Sempre que temos os sinoblocos dos nossos clientes desgastados recomendamos a consulta de alguns borracheiros que trabalham connosco”, explica o mestre Eddy, proprietário de uma oficina na zona da Relé, algures no bairro Hélder Neto.

Para o mestre João Chimala os sinoblocos de pneus são mais resistentes em relação aos comercializados nas casas de peças, que na opinião do mestre Manuel, dono uma oficina auto na zona da Mitcha, recomendam-se.
"Não há comparação possível entre os sinabloco comercializados pelas concessionárias e os que são fabricados na rua, por incrível que pareça, é feito com as mãos”. Como o nosso nome é que fica sempre em causa temos que apresentar sempre um trabalho que não nos deixa ficar mal perante os nossos clientes”, frisou.

João Chimala garante que os sinoblocos que fabrica são tão resistentes, "que podem durar mais de cinco anos na viatura, sem qualquer problema.
A medida que íamos conversando, João Chimala continuou o seu trabalho, cortando um pedaço aqui, outro acolá, a procura do formato ideal para a peça que estava a fabricar, aproximando-a o mais possível do original.
Nestes movimentos, nos chamou particular atenção algumas mudanças que iam sendo operadas, destacando-se entre elas, a troca constante de facas, para as afinações finais que se impunham.
"A medida que o trabalho vai evoluindo, vamos trocando as facas para aperfeiçoar o material”, disse João Chimala a nossa reportagem, sustentando que os retoques da borracha tornam os sinobloco mais robustos e resistentes para aguentar grandes adversidades.

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