Opinião

O dinheiro dos fiéis nas igrejas e a prosperidade dos pastores

Ismael Mateus

Jornalista

Um traço comum entre as seitas é o uso da comunicação social como ferramentas de expansão e evangelização. A estratégia passa por ocupar espaços de antena em rádios e televisões locais, ou mesmo em deter a propriedade de canais de TV de sinal aberto ou pré-pago para “vender” os seus sermões, curas milagrosas e exorcismos.

17/05/2021  Última atualização 06H45
Todo o dinheiro vem do bolso dos fiéis que doando o pouco que têm, financiam a construção dos novos templos, as vivendas pastorais, os carros top de gama e os gastos com a comunicação social, segurança e outros. Como é óbvio, o sucesso dos pastores é a prova do poder das preces e assim o "evangelho da prosperidade” que a generalidade dessas seitas professa assenta na ideia da semente. Os que passam por dificuldades financeiras, os que padecem de doenças ou os que vivem em péssimas condições devem semear com o seu dinheiro, pouco que tenham, para esperar obter prosperidade no futuro. E assim se promete a salvação, o sucesso laboral, empregos, fortunas, saúde e boa sorte como recompensa.

Nos vídeos e programas das igrejas ou mesmo no programa de TV feito por Cabingano Manuel, podemos todos constatar a opulência e exibicionismo dos pastores com roupas de marca, fios de ouro, vivendas de luxo e riqueza aparente em propriedades.

Em sentido contrário, há os crentes. Uma boa parte das pessoas decide frequentar a igreja quando a vida corre mal por falta de emprego, de dinheiro, por frustrações privadas e outros insucessos. A velha relação com Deus está nessas seitas a ser substituída pela ida à igreja em busca uma oportunidade de enriquecer, de bons negócios, de conhecer gente ou até de encontrar bons partidos para casamento. São uma espécie de novos quimbandas, onde se espera que a palavra dos pastores produza o milagre das curas de doenças, do alivio da pobreza, desemprego e fim da infertilidade. São os pastores que alimentam diariamente essa ilusória milagreira que prometem acontecer na proporção das ofertas dos crentes. Se, por exemplo, um irmão da igreja se casar com uma irmã que procurava por um marido, isso se torna num milagre, tal como o desemprego que depois de lamentar a sua sorte recebe uma oferta de trabalho de outro irmão. Como se imagina, um e outro vão mostrar financeiramente a sua gratidão à igreja para que as bênçãos se multipliquem.

E no interior dos cultos, para além do tradicional dízimo, (nalguns casos mais de 60% dos salários), há as contribuições normais e especiais destinadas a obras, a aniversariantes, às mães com problemas familiares com os filhos, aos viciados em drogas e álcool etc. etc.Também no interior cresce o número de produtos "abençoados por Deus” à venda como garrafas de azeite ou de agua, lenços, bíblias, discos e até excursões e viagens pastorais. Tudo novas formas de "sacar” dinheiro aos cidadãos.

Naturalmente, as autoridades têm responsabilidades no facto de se ter criado a ideia de que era possível uma coabitação entre as igrejas tradicionais e essas seitas. As tentativas de criação de plataformas revelam-se um fracasso e tiveram o efeito contrário de multiplicar o número delas, na expectativa da sua legalização. Os políticos em particular também têm a sua quota parte já que há sempre quem procure votos entre esses fiéis e quem acredite na bênção eleitoral dessas seitas.

O caso da Igreja Universal do Reino de Deus não deve ser minimizado, sob pena de causar um enorme estrago diplomático a Angola. Do Brasil, a IURD saltou para o mundo e representa hoje uma máquina de dez milhões de fiéis e simpatizantes em 135 países dos cinco continentes. Tem um suporte de uma rede mundial de TV e rádios e os seus métodos de actuação reproduziram-se por centenas de outras seitas, sobretudo em África. Não tarda serão os próprios cidadãos, em defesa dos quais se pede que o Governo actue, que vão apresentar-se publicamente a reclamar do direito à liberdade religiosa e disponíveis a provar como as suas doenças incuráveis tiveram cura na IURD ou como as suas vidas saltaram da miséria para a prosperidade desde que se tornaram fiéis. O êxodo de crentes das igrejas tradicionais para essas neopentecostais está de modo genérico a afectar o papel social da igreja, exigindo-se por isso que os governos façam alguma coisa. No caso africano, face às condições sócio-económicas e educativas do nosso povo, talvez se exija dos governos uma acção concertada e comum, em vez de isoladas.

Estamos então em presença de duas disputas para as quais as autoridades angolanas devem estar devidamente preparadas. Uma de nível internacional e onde terá de comprovar as acusações de evasão de divisas, racismo, prática obrigatória de vasectomia, fraude fiscal, exportação ilícita de capitais para justificar a suspensão da IURD brasileira, mas também o conflito interno que abrange muitas outras seitas espalhadas por todos os bairros do país e que praticam dos mesmos ou piores crimes que a IURD.

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