Entrevista

Comandante "Vilma": A mulher que sempre quis ser polícia

Tinha oito anos e estava na condição de deslocada de guerra, quando viu um grupo da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) desembarcar de um helicóptero, no Aldeamento 7, município do Waku Kungo, no Cuanza-Sul, para socorrê-la e à sua família. A menina, que se refugiou na mata, ao lado dos pais, irmãos e outros familiares, olhou, com admiração, para a bravura dos efectivos e tomou a maior decisão da sua vida: tornar-se Polícia de Intervenção Rápida. Actual comandante da 51ª Esquadra da Cidade do Kilamba, Victória Augusto, "Vilma", para os mais chegados, abriu o seu coração ao Jornal de Angola e lembrou outra particularidade, que também lhe influenciou o futuro: “quando pequena, quis sempre brincar de polícia, com os rapazes, os meus primos e os meus irmãos.”. Licenciada em Antropologia pela Universidade Agostinho Neto, frequenta o mestrado em segurança Pública no Instituto Superior de Ciências Policiais e Criminais, Osvaldo Serra Van-Dúnem, e pretende fazer doutoramento, na mesma área, a partir do próximo ano.

05/04/2021  Última atualização 08H24
© Fotografia por: Alberto Pedro | Edições Novembro
Escolheu ser polícia ou a Polícia escolheu a comandante?
Apaixonei-me pela farda preta, da Polícia de Intervenção Rápida (PIR), muito cedo, na infância. Quando pequena, quis sempre brincar de polícia, com os rapazes, os meus primos e os meus irmãos. Vivíamos numa rua em que todos éramos familiares. Nas brincadeiras, só eu podia ser chefe, ser comandante. Se não fosse assim, eu não aceitava brincar.


É natural do Waku Kungo, no Cuanza-Sul. É lá que lhe nasceu a paixão pela farda?

Sim. Estávamos em guerra. Na altura, eu tinha 8 ou 9 anos. Os meus pais eram contra este tipo de brincadeira. Pensaram que eu não aceitava o meu ser feminino, porque, mesmo criança, cortava o cabelo, não gostava de cabelo comprido.


Como eram as vossas brincadeiras? Também inventavam armas?
Sim! Inventávamos armas, com folhas de bananeira. Fazíamos feitios de armas e brincávamos. 


Tem polícias na família? De onde surgiu essa paixão?

Na altura, éramos refugiados de guerra e, onde estávamos, no capim, a PIR foi para lá. Vimos desembarcarem do helicóptero, descendo pelas cordas. Aquilo deixou-me maravilhada. Fiz várias perguntas à minha mãe. Ela disse-me que eram polícias da PIR. Logo que desembarcaram, fomos para junto deles, a correr, todos contentes. Fiz-lhes uma série de perguntas. 


Estavam a ser resgatados de onde e para onde seriam levados?                                                  
Nós fugimos da guerra, da cidade para a mata. Isso no Aldeamento 7, no Waku Kungo. Foi lá que a PIR desembarcou. Eu estava lá, com os meus pais, irmãos, primos e tios. Fui falar com os polícias. Naquela altura, o meu pai era administrador-adjunto no município do Waku Kungo. Por isso, tive facilidade para falar com eles. Depois que retornamos à cidade, todas as manhãs, eles corriam, "matutinavam”. Pedi ao comandante deles, o comandante Gasolina, para deixar-me correr com eles. Aceitou-me. Daí, fui-me apaixonando mais ainda. No meio deles, pensava que já era polícia.  
 

O que o seu pai achava disso?  
O meu pai ficava maluco. No princípio, pensou que fosse brincadeira, que eu não fosse aguentar o esforço para ser polícia. Em 1999, quando a PIR saiu do Waku Kungo para Luanda, pedi ao comandante Gasolina para ser polícia.     

   
Que idade tinha na altura?
Já tinha 16 anos. Disse-me que não tinha problema; que eu podia ser polícia. Logo que abriram os testes, enviou-me para o Kikuxi. Pertenci ao 5° Curso de Polícias de Intervenção Rápida, no Kikuxi.


Kikuxi é Luanda. Como foi a sua vinda à capital do país?
Vim a Luanda com a minha família, em Outubro de 1999. O meu pai trouxe-nos, eu e dois irmãos, para ficarmos com o meu tio Fausto Augusto, um irmão dele. Estávamos em guerra e Luanda oferecia melhores condições para estudarmos e maior segurança. 


Em Luanda, o sonho de ser polícia persistiu?   

Sim! Quando me apercebi que o grupo da PIR, que estava no Waku Kungo, regressou a Lu-anda, fui procurar pelo comandante Gasolina, no Delta, no Rocha Pinto. Ele fez contactos e, como estava prestes a iniciar o recrutamento no Kikuxi, levou-me para lá.


O seu tio não criou entraves?

O curso correu bem, graças a Deus! Mas o meu pai foi buscar-me na escola, por duas vezes. Ele não queria que eu me tornasse polícia. Falou com o Comissário Gerson Vieira Miguel "Papo Seco", actual II comandante Provincial de Luanda, que era o comandante no Kikuxi. O comandante Gerson, como pretexto para me tirar da escola,  disse que eu não tinha físico, era "bebé” e não podia entrar na polícia. Enxotou-me duas vezes, a pedido do meu pai. Eu saí de lá a chorar.


Só havia rapazes no curso?

Éramos apenas duas meninas, eu e a Joana Francisco, a Jane. Ela também é polícia. Treinávamos todos juntos.


Com as barreiras criadas pelo seu pai, como foi possível continuar?

Com o apoio do comandante Gasolina, que, ao aperceber-se que o comandante Gerson saiu em missão de serviço, para o Congo, foi buscar-me a casa e disse: "aproveita, o Papo-Seco foi em missão de serviço". Fiquei muito feliz e regressei ao recrutamento. O meu pai já tinha regressado ao Waku Kungo e o meu tio não tinha como impedir, diante do apoio do comandante Gasolina. Fiz a formação, graças a Deus. Durou um ano.


A comandante desafia uma menina de 16 anos a ingressar na polícia, hoje?

Não sei como é feita a recruta hoje. Na altura em que fiz, só o fazia quem gostava, quem era, de facto, apaixonada pela farda. Foi muito duro. O Kikuxi, antigamente, era um "fim do mundo”. Hoje, é um "mar de rosas”. Já tem água corrente. Nós, antigamente, íamos buscar água no canal, a correr. A vida no Kikuxi era uma correria. Fora da caserna, era só correr, não se podia parar. E aquilo era cheio de areia. Quem parasse era castigado. Atiravam-te ao canal (ao rio). Saías do canal a rebolar, até à tua caserna. Depois da caserna, tinhas de cambalhotar, enfim... Era preciso muita bravura.


   A PROPÓSITO DE REALIZAÇÕES
"As mulheres têm de fazer um esforço maior”

Como é a recruta para uma senhora?

É igual. Eu não tive, sequer, as dores, os incómodos que algumas mulheres costumam ter. Nem eu, nem a Joana. Nós, lá dentro, tínhamos somente o desafio de fazer melhor que os homens. E saíamo-nos melhor que alguns homens. A partir do momento em que você tem um objectivo, tudo deve fazer para alcançá-lo. Lá, ninguém te trata como senhora; há uma lei castrense, que não diferencia mulheres de homens. Todo o mundo se rege pelo princípio de disciplina.


Por que razão sentiam necessidade de fazer melhor que os homens?
Porque éramos meninas e não queríamos enfrentar preconceitos. As mulheres têm que fazer um esforço maior. Se mostras fraqueza a um homem, ele vai logo dizer-te que o teu lugar é na cozinha. Tínhamos que mostrar que, além da cozinha, também podíamos fazer o que eles faziam.


Agiam como homens ou ainda tinham espaço para lembrar que eram mesmo mulheres?

Vou-lhe ser sincera: comecei a ter  vaidade, a me sentir feminina, quando comecei a namorar, aos 25 anos. Já era polícia. Durante a recruta, não namorava, só queria ser polícia. Antes, eu não tinha cabeça para isso.        
             

Se começou a namorar tão tarde, as suspeitas dos seus pais aumentaram…

O meu pai só dizia: "eu acho que a minha filha está perdida”. O meu pai chorava muito, pensava que eu estava mesmo perdida no mundo.  
 

Havia o receio de que a comandante fosse homossexual, por exemplo?

Eu acho que ele tinha esse receio, mas nunca falou sobre isso.


Ainda lida com os seus colegas da recruta?
Sim! Tenho-os como irmãos. Eles é que me ensinavam a me fardar convenientemente e como colocar as botas. São, também, oficiais superiores. O Lito Bimba, o Miguel Lourenço e o Alfredo. Há uma maneira especial de pôr a farda e pôr a calça fora das botas. A ordem pública põe a farda dentro das botas. A PIR põe fora das botas e deve ter um nó, que fica muito bonito. Só eles sabiam fazer isso. Aprendi muito com eles.


Como e quando começou a trabalhar como polícia?  

Ingressei na PIR em 2000. Fiquei até 2004, altura em que escrevi para sair. Queria ser transferida para a Polícia de Ordem Pública. Queria ter outras experiências de trabalho. A PIR, naquela altura, ficava mais tempo dentro da unidade. Saía apenas para casos específicos. Eu queria vivenciar aquela adrenalina da rua. Fui investigando, conversei com o sub-comissário  Miguel Germano "Bangão", que era comandante do quartel para onde eu queria ir. Ele incentivou-me a lá ir, porque a Polícia de Ordem Pública faz giro na rua. Escrevi para o comandante Gasolina, a pedir para sair, ele ficou muito triste. Expliquei-lhe que precisava de adrenalina, de trabalhar em campo.


O que é feito do Comandante Gasolina, homem que a incentivou?

Infelizmente, já é falecido. Eu chamava-lhe pai. Queria muito que ele estivesse em vida, para ver a "árvore” que plantou na Polícia a dar frutos. Senti um vazio, quando ele partiu; senti-me desprotegida. Tratava-me como filha, porque sabia que me ajudou a entrar na Polícia sem o consentimento do meu pai. Cá em Luanda, custeou-me os estudos. Fiz Ciências Sociais na Escola da PIR, no  4 de Junho, e fiz Antropologia na Universidade Agostinho Neto. Tudo isso foi custeado por ele. Acredito que ele sentiu que tirou alguém das mãos  dos pais, que talvez fizessem mais, e decidiu apostar em mim. 


Como foi a saída da PIR?
Correu bem. Mesmo fora da PIR, fui sempre uma agente dinâmica, que quase todos os comandantes queriam ter na sua esquadra. Mesmo estando de folga, queria sempre trabalhar na rua. Eu gostava de fazer patrulhas na via pública.


Em que circunstâncias deixou de ser agente?
Apareceu uma oportunidade para fazer o concurso público de sub-chefe. Quando lá cheguei, o comandante Francisco Ribas, então director dos RH do Comando Provincial de Luanda (CPL), não recebeu os meus documentos. Disse-me que eu não podia ser sub-chefe, porque tinha bravura para ser comandante. Eu disse-lhe que era apenas agente. Ele disse: "um dia vais dar-me razão".


Chegou a entregar-lhe os documentos?

Ele não aceitou o meu processo. Fiquei muito triste, muito zangada com ele. Fui falar "mal” dele com o meu director; disse que ele estava "armado”, como se a Polícia fosse dele. O director disse-me que não podia fazer nada. Terminei a minha licenciatura. No mesmo mês, disseram-me que havia saído uma lista com o nome de todos os bacharéis, para fazer o curso de oficial. Fui lá ver, estava o meu na lista e eu estava grávida.


Fez o curso grávida ou desistiu?

Fui ter com o comandante Ribas. Disse-lhe que estava grávida. Ele perguntou-me se eu acreditava em Deus. Eu disse-lhe que "sim”. Respondeu: "então continua a crer em Deus". Saí de lá mais zangada que da primeira vez. Não podia fazer a formação grávida. Ele não autorizou, nem me proibiu. O curso arrancou, deixei passar uma semana, depois fui à escola, mesmo gravida. O curso teve a duração de três meses e decorreu no Instituto Superior de Ciências Policiais e Criminais Osvaldo Serra Van-Dúnem.


Como conseguiu fazer a formação, grávida?
Pus um vestido enorme e orei. Se me enxotassem, ia para casa. Mas não aconteceu nada. Cheguei, dei o meu nome e mandaram-me à lavandaria buscar a farda. As senhoras que me atenderam,  admiradas, perguntaram se eu tinha mesmo passado pelos RH. Disse-lhes que sim. Recebi a farda e fui conhecer a caserna. A chefe da caserna deu-me a cama, deitei-me e agradeci a Deus.


Como correu tudo?
Só faltavam dois meses para eu ter o bebé. Eu já estava com sete meses, a barriga estava muito grande. O facto de ser uma formação apenas intelectual, que não exigia esforço físico, facilitou-me. O curso ia encerrar no dia 28 de Fevereiro. No dia 9, fui ter com a minha médica e, como eu já tinha 36 semanas de gestação, pedi-lhe para fazer-me uma cesariana. Tive o bebé numa quinta-feira, deram-me alta no domingo. Na segunda-feira, deixei o bebé com a minha mãe e fui à escola sozinha, a conduzir. Quem não arrisca, não petisca.


A comandante arriscou demasiado …

Sim! Queria ter o bebé, mas também queria ter a patente. E Deus deu-me as duas coisas. Fui à escola na segunda-feira, porque foi o dia em que começaram as provas finais. Os colegas, quando me viram a entrar sem a barriga, até pensaram que eu tivesse perdido o bebé. Quando disse que o bebé estava bem, algumas colegas choraram de emoção. Antes do parto, eu estava oprimida, não podia mostrar isso aos chefes. Terminamos o curso e saí do Instituto com a minha patente de sub-inspectora. Hoje, sou intendente. 


O que disse o comandante Ribas quando a viu?

Fui para lá apresentar-me, com a patente de oficial. Ele ficou surpreso, porque pensou que eu tivesse desistido da formação. Disse-me: "eu não te disse para crer em Deus?". Eu olhava para ele com um pé atrás. 


Como foi o seu trabalho, a partir daí?
Fui trabalhar como instrutora processual, no Gabinete de Inspecção  do Comando Provincial de Luanda. O então director do gabinete, o sub-comissario Martinho Júnior, viu o meu potencial e mandou-me fazer o curso de Comandante de Esquadra. Foi em 2015. Fui fazer o curso de Comandante de Esquadra e, em 2016, fui indicada a comandante de esquadra do bairro Honga. Fiquei triste, porque não me prepararam.


Não gostou? Não era parte do seu sonho?

Foi como se me atirassem um balde de água fria. Tive receio, porque, na altura, a esquadra nem efectivos tinha. Fomos para lá fazer uma visita de campo. Depois de ouvir as preocupações dos moradores, que nos informaram que o bairro estava cheio de criminalidade, o então comandante provincial, António Maria Sita, e o então governador de Luanda, Higino Carneiro, decidiram abrir uma esquadra naquele mesmo dia. A minha surpresa foi enorme, uma emoção muito grande, até chorei. Quando entrei na Polícia, aos 17 anos, disse a mim mesma que tinha de ser comandante.


Quando se tornou comandante, não acreditou que estivesse pronta?     
 
Não! Mesmo as pessoas que cresceram comigo, quando se aperceberam que eu era comandante, vieram de Waku Kungo e foram visitar-me na esquadra. Os meus familiares gostaram. A minha mãe olha para mim como uma filha especial, sou um exemplo para a família. Ela diz que, quando eu era criança, já punha ordem em casa. Na ausência dos meus pais, eu orientava os empregados a colocar tudo no devido lugar. As coisas na minha vida não acontecem por acaso. Eu luto e consigo sempre alcançar o que quero. E digo sempre aos meus efectivos que devem lutar para alcançar as metas. Devemos ter um foco, não apenas viver sem traçar objectivos.


Há outros polícias na família?
Tenho uma irmã, a Tetinha. É a mais nova, é agente. Ela diz que prefere estar na área administrativa.


Deixaria um filho seu ser polícia?
O meu filho quer ser polícia. E eu estou a fazer com ele o que o meu pai fez comigo. Estou sempre a dizer não, porque a vida de polícia não é fácil. O polícia não tem vida própria. É preciso ter dom. Acho que ele deve crescer mais um pouco. Não vou impedi-lo, mas vou tentar convencê-lo a fazer outra coisa. Acho que o meu pai tinha razão.  
                                        

O que a leva a pensar que o seu pai tinha razão?

Porque não tenho vida própria. Programo sempre a minha vida incluindo a polícia. Não posso fazer nada sem antes ver na minha agenda que actividades tenho na Polícia.


Considera-se boa esposa e mãe?
Considero-me uma boa esposa e uma boa mãe. Sou uma mulher que sabe conciliar a casa, o serviço e a família.


Quem comanda o seu lar?

É o meu marido. Eu, em casa, sou mulher, mãe, irmã e empregada doméstica. A minha função de comandante começa do portão para dentro da esquadra. Do portão para a rua cesso a função de comandante.


 DEFINIÇÃO PESSOAL
"Sou dura apenas para os duros”

Como se define pessoalmente?

Os meus irmãos dizem que sou uma pessoa especial. Estou sempre presente, quando eles precisam. Têm-me como uma mãe, apesar de termos a nossa mãe. Sou o tipo de pessoa que luta pelo bem-estar da família. Ninguém pode tocar nos meus. A minha família e os meus efectivos não podem pensar que sou ausente. Eles podem contar comigo sempre e para tudo.


A comandante não é durona?
Sou dura apenas para os duros, os indisciplinados. Para esses, sou muito dura.


E com o seu marido?
Com o meu marido sou dura, se necessário, e reclamo os meus direitos de mulher. Falo para ele como qualquer esposa fala para o marido e ele também diz aos amigos dele que não tem uma comandante em casa. Tem a mulher dele. Somos muito amigos.


Como se veste, quando não está fardada?

Gosto de me vestir bem, gosto de um bom salto alto. A minha cor preferida é o vermelho.


O que faz nos tempos livres?
Gosto de passear, de ir às compras, nos supermercados e no mercado informal. Vou muitas vezes ao 30 e ao Catinton. 


Há bocado chorou, ao falar do comandante Gasolina. Vindo de uma comandante, foi uma surpresa…

Eu acho que essa imagem de que o comandante deve ser rude é um tabu que as pessoas criaram. Um comandante rude não consegue atingir os seus objectivos, particularmente no combate à criminalidade. O comandante deve ser flexível, não deve ter vergonha de chorar, se tiver vontade. Ainda que esteja diante dos seus subordinados, dos moradores da zona que controla ou onde vive.


O que gosta de comer, de cozinhar, como lida a comandante com as tarefas domésticas?

Gosto de cozinhar. O meu prato predilecto é cabidela com feijão de banha e funge de milho, com umas verduras. Sou do Cuanza- Sul, no meu prato não podem faltar verduras.


Quem é a sua melhor amiga?
Chama-se Natalina Ribeiro. É amiga e comadre, madrinha da minha filha. Essa senhora incentiva-me muito. Acho que se eu a conhecesse há muito tempo, a minha vida fora da polícia já estava bem mais evoluída. Conheço-a há pouco tempo, mas ela está a ajudar-me a mudar a minha vida para melhor. É exigente, às vezes, dura  comigo. Mas ensinou-me a fazer muita coisa. Incentiva-me a crescer, dá-me muitas ideias. Todos os dias, falamos. Ela é mais do que uma irmã. Mesmo em tempo de pandemia, ela esteve comigo no bloco operatório, quando fui ter a minha bebê.


Não tem amigas de infância?

Não sei porquê, mas acho que elas sentem receio; não se aproximam de mim. Eu queria muito que elas estivessem comigo nessa fase, que elas acompanhassem, mais de perto, a minha vida, como acompanharam as minhas brincadeiras. Eu não queria que ligassem apenas quando me vissem na TV ou no jornal. Queria-as próximas a mim. Por isso, quando sinto saudades, ligo. Quero estar, um dia, com todos os meus amigos de infância. Vezes há em que alguns não me abraçam porque estou fardada.


É permitido abraçar um polícia fardado e em pleno exercício das suas funções?
As pessoas podem e devem  saudar os seus conhecidos, os seus ente- queridos polícias. Encontrei-me, há tempos, com uma amiga de infância, que ficou feliz por me ver com a farda e com a patente. Pediu-me um abraço. Eu abracei-a demoradamente. Até chorámos. Muita gente olha para os polícias com tabus. Os polícias são seres humanos, são pessoas normais e também merecem abraços e beijos.


Como se diverte? Consegue ser jovem?
Consigo. Divirto-me muito, ando com calça rasgada, gosto de festas, de dançar um bom Semba do Yuri da Cunha, do Paulo Flores, da Anna Joyce, da Ary. Também gosto do Punidor,  do Kiaku Kyadaff, do Carlos Burity, do Cage One e da Eva Rap Diva.


   TRAJECTÓRIA

Que tipo de vizinha é?
Sou daquelas que onde estiver não pode haver crime. Se houver, temos que, rapidamente, esclarecê-lo.  Por isso, louvo o policiamento de proximidade, que veio mesmo nos aproximar dos nossos moradores.
       

Há algum episódio ocorrido na sua vizinhança que queira partilhar connosco?
Há bem pouco tempo, enfrentei algo que me ia custando a vida. Meliantes estavam a assaltar um vizinho, um estrangeiro. Os vizinhos tentaram ligar para o 113 e não conseguiram. Um dos vizinhos ligou para mim. Isso foi logo no dia do meu aniversário. Acordei às 2h00 da manhã, disseram-me que eram oito assaltantes. Peguei na minha pistola e fui socorrer o vizinho. Logo que ia fazer a curva para apanhar a rua do vizinho, que era atrás da minha rua, deparo-me com os meliantes, que já tinham feito o assalto e estavam a retiar-se. Fiz disparos, eles deixaram cair a pasta que levavam e puseram-se em fuga. Um deles estava armado e disparou contra mim. Conseguiram fugir. Depois disso, fui socorrer o vizinho. Era tanto sangue no quintal, que pensei que o tivessem matado. Encontrei o vivo, no quarto, com ferimentos na cabeça. Liguei para os meus efectivos, que trouxeram uma viatura da polícia. Levamos o senhor para o hospital. Levou 20 pontos na cabeça.


A Comandante disse que no Honga havia muita criminalidade. Foi difícil trabalhar na-quela zona?

Não foi difícil combater e prevenir a criminalidade no Honga. Encontrámos, de facto, muita criminalidade. Inclusive alguns jovens não conseguiam estudar à noite, por medo dos bandidos. Mas, logo no início da nossa estadia no Honga, dois ou três meses depois, a juventude recomeçou a estudar à noite. Acho que atingimos o nosso objectivo no Honga e ganhamos a confiança dos moradores. Eles facilitaram-nos o trabalho, porque conheciam os meliantes e foram mostrando. Fomos atrás desses meliantes e conseguimos resgatar armas, assim como fazer um controlo directo. Hoje, o Honga, em termos de criminalidade, está muito mais calmo e controlado.


Do Honga foi logo para o Kilamba?

Não. Depois do Honga, fui para comandante da Esquadra do Catinton, por três meses. Foi a mesma experiência do Honga. Em três meses, foi possível realizar um bom trabalho. Graças a Deus, aquela população é muito humilde. Reunimos e conversámos com eles. No final, demos nota de crime zero. Conseguimos resgatar, igualmente, as armas de fogo dos meliantes, assim como baixar, consideravelmente, a criminalidade na zona.


Como avalia o seu trabalho no Kilamba, comparando ao que fez no Honga e no Catinton?

Quando cá chegámos, encontrámos um número considerável de ocorrências, por dia. Os principais crimes no Kilamba são os furtos de acessórios de viaturas e no interior de residências. Tivemos que combater, primeiro, os furtos de acessórios de viaturas e, depois, as ocorrências nos apartamentos. Hoje temos um Kilamba mais calmo.


Quem faz os furtos no interior das residências?

Demos conta que, além dos meliantes flutuantes, aqueles que não vivem no Kilamba, que apenas aproveitam a tranquilidade da rua, do prédio, e conseguem cometer o crime, também há o meliante residente. O morador do Kilamba tem a cultura de colocar objectos valiosos nas varandas, principalmente, nos apartamentos do rés-do-chão e do primeiro andar.


Que tipo de objectos?
Bicicletas, telefones … Há os que colocam uma mesinha na varanda e esquecem-se do telefone, do computador, em cima da mesa; os que estendem tapetes nas varandas. Esses objectos são facilmente furtados pelo meliante. Muitas vezes, recebemos essas reclamações no piquete. Uns dizem que só foram, num instante, buscar água na cozinha. Esse tempinho é suficiente para um meliante subir e puxar o computador, por exemplo. Às vezes, notamos alguma negligência por parte dos moradores.


E os furtos dentro das residências?
Esses muitas vezes são mesmo praticados por moradores do Kilamba que fazem o acompanhamento dos movimentos do vizinho. Quando encontram uma brecha, entram nas casas dos vizinhos e tiram o que quiserem. Já apanhámos em flagrante, várias vezes, os próprios moradores a esconderem malas nessas viaturas avariadas, nos parques.  Mas estas práticas diminuíram consideravelmente. 


Que sonhos ainda tem, pelo menos a nível pessoal?         
                                               
Os meus sonhos giram, quase todos,  à volta da Polícia. Mas gostava de ser juíza. Se não fosse polícia, acho que seria juíza. Por agora, estou a fazer o mestrado em Segurança Pública, no Instituto Superior de Ciências Policiais e Criminais, Osvaldo Serra Van-Dúnem. Termino já este ano. No próximo ano, vou fazer o doutoramento, também em Segurança Pública.

Perfil


Nome: Victória Laura Oliveira Augusto "Vilma".

Filiação: Craveiro Augusto e Anita Oliveira Augusto.

Data de nascimento: 7.09.1982.      

Naturalidade: Waku Kungo, Cuanza-Sul.

Estado Civil: Vida marital com Africano André Pedro.

Filhos: Dois (9 anos, o menino, e 3 meses, a menina).

Irmãos: Nove.


Edna Cauxeiro

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