Opinião

Menos gente, mais crentes

A proliferação de igrejas e seitas religiosas parece ter atingido o apogeu em Angola. Um qualquer canto, uma ruela discreta, um beco sem saída pode, nestes dias, guardar um espaço de culto, de orações e louvores, de apelos honestos, e desonestos, de quem também vê na palavra de Deus o recurso para atingir os mais diferentes fins.

17/01/2021  Última atualização 10H41
E muita gente assume compromisso com estes lugares, marcando encontro com o que acredita serem momentos para a renovação da fé, a ressurreição da esperança ou a possibilidade de salvação.
Porém, fica difícil saber se as pessoas que ocupam as cadeiras de plástico, que preenchem os bancos corridos de madeira, são, realmente, crentes; se acreditam no que se lhes diz ou se estão lá simplesmente de corpo presente; apenas para parecerem devotas e comprometidas com Deus ou outro Senhor - por tudo o que acreditam representar -, por Quem as preces soam, em penosos murmúrios ou em gritos lancinantes.

Igualmente, permanece a dúvida sobre se quem fala para a audiência, muitas vezes contada às centenas, está, também ele, preocupado em mudar corações, corrigir condutas e comportamentos ou fazer emergir seres renovados, a partir dos valores que têm adormecidos. Não estará ele, simplesmente, a tirar proveito das fragilidades humanas, das fraquezas dos homens, alimentadas por problemas sociais, para sugar-lhes o pouco que lhes resta, em nome de uma fé cujo fundamento, no caso, deve ser questionado?

O crescimento de confissões religiosas ou igrejas e o consequente aumento de fiéis ou seguidores tem também a ver com a busca de amparo por quem o perdeu no caos social em que, em muitos contextos, se tornou a nossa existência. Os problemas acumulam-se e as soluções escasseiam; demoram a chegar. As fraquezas do ser humano não apenas se revelam e se renovam, como também chegam a acentuar-se. Portanto, a religião tem sido a esperança, a salvação, enfim, o refúgio final de quem procura uma saída para os males de que está cercado ou para os contratempos que o apoquentam.

A Igreja, enquanto instituição cujo prestígio e respeito a precediam, teve, ao longo da História, um percurso que a colocou numa posição de aliada estratégica das sociedades. A educação, a instrução, a formação, enfim, a moralização foram baluartes que a religião apregoou, de que beneficiaram povos, nações e culturas, e se transformaram, para muita gente, numa espécie de injecção espiritual. Mas a Palavra cedeu; perdeu a vitalidade e, de alguma forma, a razão. Outros interesses, contrários às escrituras sagradas, sobrepuseram-se. A própria Igreja permitiu-se ser usada para outros desígnios, que não os que a elevaram e a tornaram numa instituição pura aos olhos dos que nela confiavam, porque encontravam segurança e conforto.

Hoje, igrejas subvertem um papel que as chegou a consagrar, promovem a divisão familiar, instalam o caos social. Nestes dias, religiões acolhem não tementes a Deus ou a outro Senhor a quem o respeito obriga a que se curve, mas seguidores de pastores, profetas, pregadores e outros pretensos iluminados, de quem se tornaram cúmplices na busca de benefícios imediatos, não morais ou ligados à fé, mas impúdicos e materiais. Também acontece outros serem levados, inocentemente, em cantilenas de efeito encantatório, acabando por ajudar a concretizar aspirações malévolas, embora forradas em invólucros de boas intenções; embrulhadas em papel fascinante.

Há, hoje, nestes espaços de culto, louvor e adoração, mais gente do que crentes. Existe, inclusive, quem não perca uma homilia ou um sermão, para, logo a seguir, ofender o vizinho da cadeira ao lado, ignorar a saudação do colega ou negar um pedaço de pão ao faminto, pedinte, que lhe estende a mão, reforçando a recusa com palavras pecadoras. Há também quem ouça atento a pregação, mas tem o pensamento carregado de ódio, o sentimento povoado pela vingança e as ideias cheias de destruição.

Os espaços religiosos não enriquecem pessoas, não as tornam poderosas, nem as ajudam a manter-se em cargos ou em funções nos serviços públicos ou privados, por mais dinheiro ou bens que se ofereça em troca. Também não curam enfermidades. O máximo que se consegue com a fé e a crença é o conforto moral, é alguma robustez psicológica, é o amor ao próximo, é a consolidação do conceito de família. A ideia de se buscar na religião a cura para todos os males da vida ou o remédio para, por exemplo, contrapor a pobreza, o desemprego ou alegadas perseguições deve ser removida da mente de quem faz dela recurso e de quem a aconselha.

É deste labirinto que responsáveis de igrejas e confissões religiosas devem salvar quem nelas acredita. É preciso que se resgate a essência da palavra divina; é urgente que os fiéis recuperem a crença de que a redenção, tal como a definimos, enquanto corolário de boas acções, reside na prática diária, no exercício contínuo do belo e do harmonioso. Ser crente vai muito além de preencher um lugar, no espaço que se diz religioso, a cada acto, a cada dia ou a cada fim-de-semana. Ser crente é praticar o bem; é ser justo.

Igrejas são lugares de profissão da fé. Devem deixar de ser anfiteatros para negócios e provimento das finanças pessoais; devem abandonar os actos de banalização e de estupidificação do ser humano. As Igrejas precisam, sim, de voltar a espaço para a crença de quem vê na religião o caminho para a salvação, do espírito, da alma, da consciência.
As Igrejas necessitam, enfim, de se esvaziar de gente e de se encher de crentes. Na audiência e no púlpito. 

Caetano Júnior

Jornalista

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