Entrevista

Activista Mwêne Kanjika: “O futuro está na cultura”

Mwêne Kambandu Kanjika, pseudónimo de Matilde José, é uma artista plástica e activista cultural que luta pelo resgate e preservação dos valores culturais africanos. Kanjika é poliglota. Tem domínio de inglês, francês, sueco e espanhol

16/01/2021  Última atualização 20H55
© Fotografia por: Vasco Guiwho | Edições Novembro
Há quanto tempo é activista cultural?

Sou activista cultural há mais de 10 anos.

Por que escolheu esta área de actuação?

Por ser um legado que não consigo esquecer. É uma forma de perpetuar um sonho de criança, tal como a dedicação às artes e ofícios.

Qual deve ser o papel do activista cultural na sociedade?

É uma pessoa adaptada aos valores culturais, que compreende profundamente a cultura e a sua importância. A cultura deve ser entendida e preservada. Alguns rituais, como comer com as mãos, favorecem a unidade e a irmandade.

O que é necessário para ser activista cultural?

Estar comprometida, ter paixão pela cultura, ter o sentido de auto-afirmação pelo que somos. Só assim não se perde a dignidade de um povo. Não há sociedade sem cultura.

Qual deve ser o papel da mulher na sociedade?

A mulher numa sociedade precisa de representar a sua comunidade. Ela é mãe e, portanto, tem de ajudar a potencializar os filhos. A mulher desempenha actividades em  todos os sectores e, inclusive, nas comunidades ela exerce o papel de médica tradicional.

Como vê a educação na sociedade de hoje?

Falar de educação hoje é complicado, muito difícil. A maioria das pessoas passa pouco tempo com os filhos, por causa da dinâmica social. A ideologia cultural típica das mulheres africanas foi substituída ao longo dos anos pelo modernismo. Hoje a influência de outras culturas cria uma pressão na educação dos filhos. Além do mais, nas escolas há falta de jangos para o aconselhamento das crianças. Logo, há um fraco despertar da consciência destas para aspectos como a própria identidade. O governo deveria criar uma área para informação cultural nas escolas. Isso ajudaria a preparar o jovem para o futuro. As palestras também são fundamentais.

Por que razão as línguas maternas são pouco valorizadas?

A falta de aceitação cultural é a principal razão. Quando a pessoa aceita a própria cultura não sente vergonha de falar a língua materna. Mas também porque muitos pais deixaram de transmitir tal conhecimento aos filhos.

Que futuro perspectiva para a mulher na sociedade?

Na sociedade angolana, se centrarmos os olhos mais para as zonas urbanas, ficamos equivocados sobre o futuro. Mas se pararmos e reconhecermos os erros tudo pode mudar. O futuro está na cultura. A comunidade deve ter um papel mais activo.

E quanto à introdução de novas culturas?

A maioria não é ideal para as realidades africanas. São resultantes da realidade europeia ou americana. Temos de velar mais pela preservação da africanidade, desde a vestimenta aos aspectos antropológicos e culturais. É uma forma de ajudar na endoculturação, o processo de transmissão da educação desde o nascimento.

É difícil ser uma activista cultural em Angola?

Não é fácil. Primeiro porque sou da etnia ambundu, muito aculturada, com um pensamento mais europeu. Há pessoas que não suportam a minha forma de ser e pensar. Embora se fale muito sobre o resgate de valores, o apoio ao activismo cultural é praticamente inexistente. Mas a divulgação do assunto e o surgimento de jovens activistas já é uma realidade. Espero que tudo mude no futuro.

Quais os seus planos para o futuro?

Espero continuar a trabalhar neste sector. Tenho 20 crianças e adolescentes sob os meus cuidados. Os ensino a pintar, tocar batuque, dançar, dizer provérbios, como fazer as comidas africanas e até mesmo o típico vestir das africanas. Também explico sobre cultura e tradição angolana. Estou a escrever um livro de contos e histórias de angolanos cujo trajecto de vida influenciou gerações. O livro vai trazer também um pouco do meu percurso pessoal, como forma de incentivar os jovens. Tenho tido o apoio de Carlos Maneco e de Felipe Vidal.


Perfil

Natural de Porto Amboim, província do Kwanza-Sul, Matilde Augusto José nasceu em 7 de Setembro  de 1977. É a quinta filha do pescador Miguel Augusto José e da camponesa Lauriana Kanjika (já falecida). Na década de 1990 fez o curso médio de Ciências de Educação no INE Garcia Neto, em Luanda. Posteriormente fez um curso de inglês, passando a leccionar esta língua. Em Portugal aprofundou os seus estudos de línguas internacionais. Na Suécia fez os cursos de marketing, hotelaria, curadoria de arte e gastronomia. 

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