Opinião

As democracias precisam de defender-se

O ainda Presidente norte-americano, Donald Trump, enfrenta desde hoje um segundo processo de impeachment [destituição], por causa das suas claras e inegáveis responsabilidades na tentativa de golpe de estado do último dia 6 de Janeiro.

13/01/2021  Última atualização 09H16
Seja qual for o resultado desse processo, já é possível retirar algumas conclusões, tanto gerais como particulares, dos espantosos acontecimentos a que o mundo continua a assistir, por causa da recusa de Trump em aceitar a derrota nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Comecemos por três conclusão de carácter geral, que nos interessam a todos, seja qual for a nossa nacionalidade e o país a que pertençamos.

A primeira é que a democracia não é um dado adquirido. Com efeito, essa fundamental construção histórica da humanidade, mais do que uma declaração, é isso mesmo: uma construção permanente. Assim, e como construção que é, está sujeita a acidentes, erosão ou mesmo tentativas deliberadas de destruição. Os autocratas e ditadores estão sempre à espreita, por vezes disfarçados de reformistas.
A segunda conclusão é que, sendo uma construção, a democracia carece de manutenção e aperfeiçoamento permanentes. Não basta – sublinhe-se –fazer as correcções de tiro que se impõem em determinados momentos históricos.

Além disso, é imperioso não ter medo de ampliá-la, sempre que as sociedades o exigirem. É que os sonhos dos seres humanos são inesgotáveis. Por isso, a cada direito conquistado, os cidadãos exigem cada vez mais novos direitos. Esses novos direitos tanto podem ser inéditos como implicarem a revisão de certezas, leis e determinações anteriormente estabelecidas e aceites como "consensuais” (veja-se as demandas para alterar símbolos racistas e escravocratas,que se pensavam "normalizados”, em países como os EUA, Grã-Bretanha e Brasil).

A terceira conclusão é que as democracias precisam de defender-se. A ideia de que a democracia é o reino da liberdade absoluta e sem quaisquer limites é irracional e perigosa, podendo levar à própria destruição da democracia. Como sabe, o grande exemplo histórico dessa possibilidade foi a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, mas há outros (os líderes africanos que chegam ao poder via eleições e, depois, alteram a constituição para nele se eternizarem são uns pequenos "hitlers”).

Quanto às conclusões dos acontecimentos do dia 6 de Janeiro de 2021 nos Estados Unidos que dizem respeito especificamente a esse país, a primeira é que, afinal, a "maior democracia do planeta” também pode correr o risco de se transformar numa "república das bananas”. A comparação – que continua a correr o mundo - foi feita em primeira mão, corajosamente, pelo ex-Presidente George W. Bush. No fundo, a mesma confirma o que disse atrás: a democracia não é um dado adquirido.

A segunda conclusão é que a tentativa de golpe que acaba de acontecer nos EUA só foi possível não apenas porque contou com a cumplicidade, durante os últimos quatro anos, da maioria do Partido Republicano (inclusive, já foram apuradas algumas cumplicidades individuais, de oficiais da Polícia e outras, no ataque ao Capitólio), mas, principalmente, porque a democracia não se defendeu adequadamente, desde as eleições de 2016, quando possibilitou a eleição de Donald Trump, até ao fim do seu mandato.

O papel do "jornalismo” das falsas equivalências, do "jornalismo-audiência”, e das grandes plataformas tecnológicas na alimentação do trumpismo, por exemplo, merece uma tese.A recente decisão do Twitter de bloquear a conta de Trump veio demasiado tarde.
A terceira conclusão que precisa de ser extraída dos factos do dia 6 deste mês é que continua a haver duas Américas.

Uma das palavras de ordem dos atacantes do Capitólio, na sua quase totalidade brancos, fala por si: -"Queremos o nosso país de volta!”. Ou seja, a América branca, sem negros, hispânicos, asiáticos e imigrantes em geral. Fica claro que a democracia americana precisa de ser aprofundada e ampliada.
Uma nota final: se Donald Trump não sofrer a acção da Justiça, a ideia da América como santuário e exemplo da democracia será mortalmente ferida.

*Jornalista e escritor

João Melo*

Jornalista e Escritor

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