Opinião

Do heroísmo e seus derivados

Acompanho a situação em Portugal apenas pela imprensa e pelas televisões, nutrindo certa simpatia pela actual forma governativa no poder, incluindo a coabitação entre um primeiro ministro socialista, apoiado criticamente por dois partidos mais à sua esquerda, e um chefe de Estado filiado à melhor tradição do centro-direita europeu.

03/03/2021  Última atualização 10H29
Assim sendo, não pude deixar de ficar estupefacto com a "normalização”, voluntária ou involuntária, que tanto o governo como o Presidente da República português fizeram, objectivamente, de um "herói” colonialista, fascista e salazarista: o tenente-coronel Marcelino da Mata, recentemente falecido.

Não sou um fã particular do estilo meio "mórmon” – digo-o com todo o respeito quer por ele quer por essa corrente religiosa - do economista Francisco Louçã, antigo líder do Bloco de Esquerda, mas, em relação a este tema, estou integralmente de acordo com aquilo que ele disse no seu habitual comentário na SIC, depois de demonstrar, com base em várias informações disponíveis para toda gente, que Marcelino da Mata foi um criminoso de guerra: -"Um criminoso de guerra não pode ser apresentado como um herói. Os heróis portugueses [quaisquer heróis, acrescento eu] não podem ser criminosos de guerra”.

A caracterização feita por Louçã do militar mais condecorado das Forças Armadas portuguesas não é fakenews. O próprio encarregou-se, em várias intervenções públicas feitas ao longo da sua vida, de confirmá-la. Sugiro aos leitores, por exemplo, assistirem ao documentário "Anos de Guerra – Guiné 1963-1974”, do ano 2000, produzido por Pedro Efe e realizado por José Barahona, disponível na íntegra no Youtube.

A figura de Marcelino da Mata é, na realidade, de uma obviedade chocante e – insista-se - criminosa. Nenhuma ambiguidade. Nenhuma historicidade que precise de ser levada em conta pela análise actual.
Como explicar, assim, o erro – porque se trata de um erro, quer histórico quer político – do governo de António Costa e do Presidente Marcelo de Sousa?
Na minha opinião, duas razões contribuíram para isso. Primeiro, a dificuldade de Portugal de lidar com a sua herança colonial e o seu racismo. O mito da colonização "cordial” e do "não-racismo” comprovam-no. O facto de Marcelino da Mata ser negro, ter nascido na Guiné-Bissau e ter optado por servir o Império colonial é, pois, instrumental, mau grado tratar-se de um torcionário. Segundo, a falácia das falsas equivalências, utilizada pela extrema direita em todo o mundo para se contrapor às reivindicações e exigências revisionistas das forças apostadas em radicalizar a democracia, isto é, levá-la até às últimas consequências.

É certo que muitos confundem a luta, necessária e legítima, pela radicalização (melhor dizer, talvez, completamento) da democracia com a instauração de guetos e novas tribos, mas isso não é, em absoluto, comparável à equiparação de criminosos de guerra, qualquer que seja o seu lado, a heróis.

O facto de, na sequência das reacções em torno do falecimento de Marcelino da Mata, mais de trinta mil portugueses, à data em que revi este artigo, terem assinado uma petição pública para que o Estado deporte o activista anti-racista MamadouBa, que é igualmente cidadão português, embora nascido no Senegal, confirma que o país tem um desafio indesmentível: superar a mentalidade colonial que persiste em largas franjas da sua sociedade.
Nota final: a persistência dessa mentalidade demonstra que o "colonialismo bom” nunca existiu.

*Jornalista e escritor

João Melo*

Jornalista e Escritor

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